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Um voo que começou mal

Posso dizer que já impedi um acidente de avião que teria matado a mim e outros seis jornalistas. Foi assim. Por volta do ano 2000, os sem-terra invadiram uma joia de fazenda chamada Ana Paula, em Bagé. Destruíram maquinário, estragaram o que podiam, e impediram que o negócio tivesse continuidade.

O proprietário, Ernesto Correa – nada a ver com o ex-diretor da RBS – chamou os colunistas e apresentadores de rádio e TV e nos botou em um avião bimotor, para ver in loco a barbaridade que os invasores fizeram com a fazenda, famosa pelo novilho precoce, Ana Paula (nome da sua filha). Ele plantava tudo que o rebanho comia, do milho à forrageiras, era autossustentável.

A decolagem do Aeroporto Salgado Filho estava marcada para o início da manhã. Eu sentei no último banco. Assim que o Beechcraft decolou, senti o cheiro característico de metal em alta temperatura. Lembrando dos meus tempos de aeroclube, pressenti que o óleo do motor (a pistão) não estava chegando no motor, e isso significava risco de incêndio.

Olhei para os dois lados e vi uma mancha preta se espalhando pelas asas, sintoma de que quem havia colocado o óleo esqueceu de fechar as tampas dos reservatórios de óleo. Dirigi-me para a cabine e chamei a atenção do co-piloto, que, imediatamente, também viu que algo estava errado. O cheiro de metal queimado vinha dessa falha.

Os pilotos deram meia volta em seguida e pousaram, com receio de fogo nos tanques de combustível. Felizmente, não chegou a tanto. Presente a bordo, o jornalista Diego Casagrande me elogiou pelo sangue frio.

Não foi bem sangue frio, foi a noção de pressa sem pânico. O meu estava na reta.

Ernesto Correa desistiu do Rio Grande do Sul e foi -de mala e cuia- para o Uruguai, onde já plantava arroz. O Uruguai é um país sem ranço, mesmo que na época o governo fosse de esquerda. Eles sabem como funciona a roda da economia.

Vimos aquele estrago todo, e deu pena assistir tanto esforço ir por águas abaixo.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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