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O crime do bigode

– Vou dançar uma valsa debaixo do teu bigode!

Essa expressão traduzida do alemão no dialeto Hunsrick foi dito por um agregado do meu pai, cujo desfecho foi um assassinato. Quando minha mãe completou 91 anos – ela faleceu um ano depois, em 1994 – tive uma longa conversa com ela sobre os tempos de sua juventude e os duros anos do início do casamento.

O Vale do Caí era pouco habitado na época, e meu pai percorria longas distâncias com sua mula. Depois com os frágeis carros e caminhões.

Lembro em especial uma noite tempestuosa dos anos 1940, quando o pai, eu e a mãe viajamos de Feliz para São Vendelino a bordo de uma casquinha de noz com motor, o Juwa 4, da Renault. Havia uma balsa no Rio Caí. Mas, para economizar o pedágio, era costumeiro cruzar o rio em um trecho pedregoso quando o nível estava baixo.

De dia, já dava um frio na barriga. Imagina uma noite com chuva.

Em dado momento, o autinho balançou ao saber das marolinhas causadas pelo vento e aumento do nível para depois ir patinando até a margem salvadora. Rapaz, nunca senti tanto medo nos meus poucos anos de vida.

Minha mãe contou que imagens antigas reaparecem na sua cabeça. Portanto, era capaz de descrever cenas, cheiros, roupas e rostos com minúcia assombrosa.

Ainda falou de episódio em que o pai foi com ela numa festa de dia de matança de porcos, no Morro do Tico-Tico (Spatzberg), em Bom Principio, anos 1930. Um evento comum naquela época. Apareceram vizinhos, conhecidos e amigos – e inimigos.

O pai era uma espécie de líder da região. A festa ia bem, até que apareceu um desafeto de revólver em punho.

Para entender o espírito da época, o abate de suínos, naqueles tempos, era uma festa para adultos e crianças. Os pais bebiam cerveja e contavam causos enquanto comiam torresmo ainda quentinho, que, para mim, era manjar dos deuses.

Por outro lado, as mulheres trocavam confidências e a criançada disputava a bexiga do porco, que era inflada e servia como bola de futebol aérea ou como balão.

O homem era violento e tinha um brilho assassino no olhar, contou a mãe. Desafiou meu pai para uma briga armada e ficou brincando com a arma até apontá-la para o pai.

Nisso, um empregado nosso na venda e prensa de alfafa, muito disputado pelos quartéis para alimentar cavalos, postou-se na frente do pai e desafiou o inimigo comum com uma frase que fazia sentido em alemão.

– Vou dançar uma valsa debaixo do teu bigode!

Neste preciso momento, o valentão atirou. Ele morreu defendendo meu pai, disse a mãe com os olhos marejados de lágrimas. Foi um enterro triste.

Ela só não lembrou o desfecho, se o assassino foi preso ou não. Conhecendo as histórias daquele tempo, temo que o crime tenha ficado impune.

Toda aquela região tinha histórias de violência, com brigas com os bugres que sequestravam filhos de colonos, episódio narrado por Monsenhor Matias Gansweidt no título LUIS BUGER UND DIE OPFER SEINER RACHE (As Vítimas do Bugre, ação comandada pelo bugre Luis). Além disso, havia conflitos entre famílias e brigas novas turbinadas por cerveja e um coquetel chamado “Serrano” (Serôna, no dialeto). Era uma mistura de cachaça, mel ou guaco, suco de limão, açúcar e canela servido em copo de chope que corria de boca em boca.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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