Antes do aparecimento dos cartões e Pix, os cheques representavam praticamente 100% dos pagamentos. Havia um jeitinho brasileiro, que era o cheque pré-datado. Tomou tal vulto, que a autoridade monetária decidiu que, mesmo com data a posteriori, ele poderia ser descontado antes da data aprazada sem problemas.
Mas enquanto seu lobo não veio, essa modalidade corria no mercado mais que lebre fugindo da raposa. Evidentemente, que o pré-datado era o paraíso dos agiotas, que o pediam caso o “cliente” não pagasse.
Houve até uma história que presenciei envolvendo um deles. Mas antes, vem a história do gauchão que comprou uma joia cara para a amante.

Nos anos 1970, os bancos abriam para o público das 13h às 17h. Pois foi faltando 20 minutos para o fechamento de uma sexta-feira que o nosso gauchão pilchado entrou numa famosa joalheria de Porto Alegre e pediu que mostrassem uma joia caríssima para a moça. Ela, deslumbrada, apontou o dedo para uma.
– Pois me embrulha esse pra presente – falou o sujeito.
E puxou o talão de cheques, começando a preenchê-lo, coisa de seis dígitos. O gerente da loja olhou o relógio.
– Perdão, senhor, mas os bancos já estão fechando. Não que eu desconfie do seu saldo bancário, mas sabe como é, tenho um diretor acima de mim.
– Pois não há problema. O senhor fique com o cheque, desconte na segunda-feira e ela vem buscar o presentinho depois.
O gerente foi cedo ao banco na segunda-feira e pediu para o gerente ver se tinha saldo. Não era de jogar fora, mas longe do valor da joia.

Ao meio-dia da segunda o gauchão entrou na joalheria. Pediu o cheque e o rasgou. Mas e o presente, podemos parcelar – ponderou o gerente.
– Claro que não tenho esse dinheiro. Nem o quero.
E piscou o olho.
– Precisava ver o final de semana que passei com a moça…
Chuva de cheques
O caso do agiota foi uma espécie de justiça divina. Ele carregava uma pasta cheia de cheques pré-datados, quando ainda não podiam ser descontados antes da data.
O cara cobrava juros absurdos, mas fazer o quê. Ele fez uma visita para os funcionários de um banco no terceiro andar, dezenas deles. Os enormes janelões tinham mais de dois metros de altura.
Então precisou ir ao banheiro, aqueles boxes sem teto e com a porta vazada embaixo. Deixou a pasta junto aos pés. Subitamente, alguém enfiou a mão e levou a pasta.

Esbaforido, o agiota perdeu um tempo levantando as calças e fechando o cinto. Saiu correndo para ver quem fora o malvado que o roubou. De repente, ficou pálido e esmurrou a parede.
Em centenas de pedacinhos, todos os cheques pré-datados que tinha na sua pasta foram vistos caindo. Alguém livrou o dele e de todos os colegas de sofrimento.
Um caso do peru
Arquimedes Audi, um personagem fantástico da cidade dos anos 1980, recebeu um cheque de terceiros. Era dia 23 de dezembro, então ele foi ao Restaurante Treviso do Mercado Público e encomendou um peru de Natal, com sarrabulho e guarnição em dobro. No dia 26 ele voltou e chamou o dono.
– Carlinhos, teu peru não estava bom…
– Arquimedes, teu cheque também não…
Urubu quando está de azar, o debaixo faz cocô no de cima
Pensamento do Dias