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Em busca da melodia perdida

Já contei que um dos períodos mais felizes da minha vida foi quando eu não dormia mais que três ou quatro horas por dia. Faculdade de manhã, banco à tarde, e Zero Hora das 23h até 7 da manhã, quando eu reiniciava o ciclo. Não que os salários fossem monstruosos. No entanto, tudo era encarado como o Hulk encara um tanque quando arrostado.

Uma coisa daquele tempo ainda não consegui completar para encher o baú das lembranças. Eu morava na Duque de Caxias, 533, segundo andar. Era feliz no meu humilde tugúrio, especialmente quando chovia e me punha na microssacada para olhar os molhados paralelepípedos seculares. Eram perfeitamente alinhados, divididos pelos trilhos do bonde, refletindo a luz que vinha das lâmpadas dos postes. Então, eu ficava como uma criança vendo desenho animado pela primeira vez.

 Ocorre que, nos domingos à noite, horas antes de ir para a redação da Zero Hora, na rua Sete de Setembro, um programa de música erudita da rádio da Universidade tocava uma vinheta. A melodia completava o quadro, assim como o queijo e a goiabada se completam no doce e nas tábuas Romeu e Julieta. Era linda, acalmava e comovia.

Claro que eu sabia quem era. Porém, nos anos seguintes, eu esqueci. Pensei que fosse Mozart, depois achei que era um dos italianos, em vão.

Até hoje estou à procura daquela melodia perdida. Sei cantarolá-la, assobiá-la em parte. Mas nunca a achei nem com o aplicativo Shazam. Preciso achá-la, eu preciso achá-la. Achá-la.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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