Soube que morreu, aos 90 anos, meu primo Renê Weissheimer, cuja mãe, Sylvia Selbach de solteira, era irmã da minha mãe. A notícia levou-me a melancólicas lembranças dos anos 1950.

Então, meu pai vinha para Porto Alegre e eu ficava na casa da tia Silvi, como era chamada, na rua Franklin Delano Roosevelt. No lado oposto ficava o armazém do tio Edmundo Weissheimer, com seu slogan chamativo “Armazém Edmundo, o terror da zona”.
Todo o 4º Distrito era um bairro-cidade, com carnaval próprio e Natal que dispensava o auxílio da Prefeitura. Era um bairro orgulhoso, tinha até um vereador reeleito por vários mandatos, Aloysio Filho, que hoje dá nome ao prédio da Câmara Municipal de Porto Alegre.
Avenida Eduardo e suas atrações
Este era o nome antigo da avenida, e os moradores o mantinham teimosamente. Na época, assim como os mais velhos ainda falam, a Voluntários da Pátria era o Caminho Novo e a Protásio Alves era conhecida como Caminho do Meio, alusão a cidade de Viamão.

O restaurante e bar-chopp Recreio Avenida era o reduto dos moradores, parte deles descendentes de alemães. Os clubes sociais de Porto Alegre eram fortíssimos, e a Sociedade Gondoleiros do bairro prezava sua importância.
Até um grupo de teatro foi criado, o Grupo dos 16. Eles não dependiam do Centro de Porto Alegre, que, naqueles anos, era a Meca dos porto-alegrenses e turistas. Hoje, causa depressão.
Adeus às ilusões
Todo esse conjunto de lembranças que me deixam melancólico fazia parte de uma Porto Alegre que morreu, e morreu de morte matada. A cidade de 400 mil habitantes se tanto, hoje tem 1,3 milhão. Desocupados e gente do mal tomaram conta, pichadores emporcalharam a cidade.

Até restaurantes da área central sumiram. Nem pizzaria tem mais, e nem churrascaria digna desse nome.
Depois que as cidades passam de 600 mil habitantes não são mais administráveis, é uma corrida atrás do prejuízo. Seja por falta de dinheiro e/ou preços caros dos restaurantes, seja pela comodidade das tele-entregas e mudança dos padrões de lazer, a capital gaúcha entrou em um modo zumbi, as noites alegres dos bons tempos sumiram, salvo pelos points da gurizada.
Personagens do Rio Grande
O cantor nativista João de Almeida Neto, nascido em Uruguaiana em 1968, é uma presença constante nesta área. Autor de muitos sucessos, recentemente deu uma reformulada no visual, adotando uma armação diferente para seus óculos – ou lunas, como dizem na Fronteira Oeste.

Entre suas músicas conhecidas está Alma de Poço: “Madrugada mais lubuna mateio desprevenido/Tenho andado mal dormido com paixões demais pra um/Os meus olhos tresnoitados se voltam mesmo pra dentro/A vida põe sal na boca e o mate não mata a sede”.
Árvore que nasce torta dá mais sombra.
Pensamento do Dias