Desilusão/Desilusão/Danço eu/Dança você/A dança da solidão. Os versos de Paulinho da Viola eram muito presentes nas noites e madrugadas para quem não tivesse um chamego naqueles turbulentos anos 1960.
Para quem fosse da classe média alta o problema não era tão grave. No entanto, aos pelados, como eu, elas poderiam ser terríveis.
A meu favor, eu tinha a mocidade e a lábia. Mas vocês sabem como são essas coisas, amor que vive de brisa é bom, entretanto, não dá camisa.
Em matéria de conseguir uma namorada sem precisar casar era tão difícil quanto ganhar no bilhete da Loteria Federal. O diabo sempre pousa no monte mais alto. De maneiras que restava a caça em campo aberto.
Do ponto de vista da caça, as garotas não eram como as de hoje, em que sexo era tão comum como tomar café da manhã. Não, senhores, era difícil também. Isso porque a cultura daquele tempo era caçar marido, de papel passado e tudo.
As que vinham do interior para estudar ou trabalhar tinham que primeiro se adaptar à cidade hostil, cheia de armadilhas e trechos de areia movediça. Um destes lamaçais que podiam engolir fácil e rapidamente as que se dispunham a esta vida triste, curta e solitária, se render à prostituição seja qual for o ramo.
Sim, as que tinham berço eram mais fortes. Mas quando a solidão e a fome batem, pela ordem, não havia muitas opções salvo uma vida recatada dormindo abraçada ao travesseiro.
As que preferiam a rota mais fácil, terminavam como no samba de Assis Valente “Em vez de boneca de louça/Hoje é boneca de pano/De um sombrio cabaré”.
Bueno, entrementes eu ia para a caça, como falei. Moço, jovem, bonito, éramos felizes. Apesar de eventuais jejuns, só quebrados com uma mistura de doces chamada Mata Fome, vendidos nas boas casas do ramo pé-sujo nas bancas do abrigo dos bondes, que se anunciavam com um BLÉM, BLÉM em pedal acionado pelo motorneiro.
Poucas bonecas de louça conseguiam um final feliz com namorado firme ou casamento com alguém que as amasse e lhes desse paixão, amor, abrigo e uma vida estável. Cidade grande é como leão faminto, gosta de devorar pessoas.
Das minhas estratégias, a mais bem sucedida era dar plantão no Restaurante Treviso do Mercado Público, que ficava aberto toda a madrugada. Esperava o dia 30, quando quase todo mundo recebia o salário mensal e o gastavam com as mulheres da Boate Mônika, a mais famosa da cidade, comparada com o La Licorne de São Paulo.
As moças de vida airosa faturavam um bom dinheiro nestes dias, preenchidas e regozijadas, comemoravam bebendo uma boa bebida e comendo uma boa comida no Treviso. Neste ponto da rotina eu entrava, sentava em uma mesa num canto com olhar de bezerro sem mãe.
Atiçava o instinto maternal das mulheres. Não demorava e uma delas me convidava para sentar com elas, com tudo pago e paixão de grátis. Sim, eu era um sem-vergonha. Mas quem não é quando se sai a serviço da paixão?