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A loira do mausoléu 

Quando comecei a carreira, em 1968, como repórter da madrugada, também se abriu o baú de lendas urbanas do baixo e do alto mundo. Na madrugada daquele tempo, a coragem precisava ser encapsulada pela prudência. Afinal, o mundo das favelas é zona em que aparecer com cara e coragem podia não ser bom para a saúde.

Não que fossem perigosos, ao contrário, quem se escondia no meio dos casebres jamais conseguiria atestado de bons antecedentes. A lei era o TREZOITAO e a 12, incorruptíveis nas suas sentenças cuspidas na boca dos seus cabos. 

 Falemos de fantasmas, que pelo menos não disparam armas de fogo. O tio Miro, fotógrafo de nomeada forjado no chumbo das letras das pesadas linotipos, gostava de contar o caso da loira fantasma que, entre um ÚÚÚ!!! e outro, depenava quem subisse a lomba dos cemitérios.

As vítimas juraram que ela era linda, vestia-se com um manto branco e, diziam, tinha sangue dos olhos. Segundo o Miro, estava na cara que assombração não era, pois fantasmas não batem carteiras. 

O fotógrafo, que fora do Diário de Notícias, A Hora e, por fim, ZH comigo, garantiu que fez uma investigação e descobriu o furo da bala. Na ponta do fundo do São Miguel e Almas, vivia um antigo morador a quem se creditava sabedoria do sobrenatural.

O bom homem contou que, havia anos, uma loira muito bonita fora assassinada por seu namorado. Então começou a assustar os passantes.

      – Mas fazia parte do susto roubar dinheiro?

   O homem coçou a cabeça. 

       – Isso eu não sei. Mas diziam que ela gostava de dormir em um mausoléu. 

Devia ser o lar perfeito para quem perambulava pelo além. Miro me contou que, algum tempo depois, o zelador do campo santo deu uma geral nos mausoléus e, em um deles, encontrou várias carteiras vazias e documentos expropriados pelos simples mortais. Confesso que fiquei decepcionado, esperava um desfecho misterioso digno de figurar no rol das almas penadas.

Em compensação, em dezembro de 1968, fui convidado para uma galinhada no bairro Camaquã, lar de uma mãe de santo da linha pesada. Em dado momento, ela me pegou pelos ombros e falou.

     – Nesta madrugada, não vais ter serviço, nem homicídios, nem incêndios, acidentes de trânsito, nada. Mas logo de manhã, prepare-se para uma tragédia.

  Faltando cinco para as oito do sábado, eu estava na redação da ZH, na 7 de Setembro, naquela época, e alguém ligou para meu ramal.

     – Acho que vi pelo retrovisor um ônibus cair no Guaíba, na ponte do Saco da Alemoa. 

   Peguei o fotógrafo Sérgio Arnoud e um táxi DKW e me mandei. Vinte e oito mortos. Ónibus do Instituto Desidério Finamour, de Guaíba, que vinha para Porto Alegre. Eu lembro até hoje da galinhada no bairro Camaquã. 

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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