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A herança do Príncipe

O que tem a ver a Banca 1 do Mercado Público com a escola de samba Portela? Muita coisa. O enredo deste ano da escola carioca será o Mercado Público de Porto Alegre. E mais especificamente o Príncipe Custódio, ou Joaquim Custódio de Almeida, um negro africano que, em 1863, arregimentou escravos para ajudar na construção do Mercado, tarefa que findou em 1869.

Como pagamento, Custódio, que morreu aos 104 anos, recebeu a primeira banca, que até hoje vende artigos religiosos de matriz africana.

Foto: Fernando Albrecht

As balas do Bará

A influência das religiões afro no Mercado é tamanha que existem lojas de artigos religiosos logo após as quatro entradas do prédio. E, no miolo, onde se encontram as calçadas dos acessos, está enterrado o Bará do Mercado, como é conhecido pelos adeptos.

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Creditam a ele o fato do Mercado ter sobrevivido a três incêndios e duas enchentes, sendo a última em 2024. É neste ponto que são colocadas oferendas dos mais variados tipos, inclusive balas, que o Bará gostaria de comer.

O começo da jogatina

Além do milenar carteado e dos cassinos para poucos, o povo jogava extemporaneamente nas festas de igreja do interior, maioria para arrecadar dinheiro para a construção de uma nova igreja ou templo. Começava com a inocente “pescaria”, em que um caixote cheio de areia na qual se fincavam anzóis que uma vez puxados por um anzol improvisado traziam para a superfície pequenos mimos – ou nada.

Em paralelo, jogava-se víspora, aqueles cartões com números aleatórios, mais tarde copiado pelos bingos. O primeiro que fechasse uma série levava o prêmio. Na maioria das vezes, era um refrigerante ou uma cerveja, quando muito.

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Cansei de jogar víspora com meus primos quando adolescente, com pedras substituídas por grãos de feijão ou milho. Afora a alegria de ser o vencedor, nada. Quando muito, contava-se os grãos de feijão ou milho para dizer que era a fortuna ganha no jogo.

Tempos de ingenuidade

O bom dos tempos antigos era exatamente isso, a ingenuidade inclusive de adultos. Qualquer piada, que hoje não arrancaria sorrisos nem de uma freira, era recebida com gargalhadas. 

Político suspeito de desviar o equivalente a 10 mil reais era execrado. Namoro, noivado e casamento eram rituais levados a sério. Primeiro olhares, depois mãos dadas, beijos roubados e namorar na casa dos pais.

Abrir uma conta no banco com o primeiro emprego era a glória. Abrir mão da mesada do pai era motivo de orgulho. A formatura no ginásio, ensino médio, era outra.

O veraneio na praia era aguardado desde o inverno, e a viagem de carro e até ônibus era intensamente curtida. Na noite anterior ninguém dormia.

Foto postada por Valesca Petersen

Ao pó voltaremos

Em menos de 80 anos, tudo isso virou pó. Adeus ingenuidade, chegou a vez do jeitinho brasileiro, primeiro degrau para a vigarice.

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Os 10 mil dos políticos viraram 10 ou mais milhões. Perdeu-se a vergonha, que nunca mais foi achada no Brasil. Não sei como será o futuro. Talvez nem o tenhamos.        

Para constar em ata

O ministro Fernando Haddad apareceu ontem na TV para dizer que “podemos estar diante da maior fraude bancária do país”. Podemos não, ministro, estamos.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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