Eu sou jornalista há praticamente 60 anos e leio jornais com o olhar de entender o que leio há mais de 63 anos. Acompanhei a crise gerada pelo suicídio do presidente Getulio Vargas, em 1954, lendo revistas como O Cruzeiro, cuja tiragem era de 1 milhão de exemplares semanais. Uma proeza hoje, imagina na época.
Em 1954, eu tinha 11 anos, e não enxergava a floresta. Mas sabia ler e entender perfeitamente o que era a expressão “mar de lama” que se dizia do governo.
Houve um tremendo quebra-quebra no Brasil e em Porto Alegre. Queimaram emissoras de rádio e destruíram a Importadora Americana só porque tinha americana no nome, era uma revenda de automóveis situada na avenida Farrapos.

O que eu não entendia era porque, se havia um mar de lama, o povo livrava a cara do presidente Getulio Vargas. Ele era o chefe, certo? Então por que essa absolvição? Foi meu primeiro contato com um estouro da manada, estouro sem lógica.
O mar que nos cerca
Com o passar dos anos e já bem grandinho, fui me dando conta de que o país maravilhoso – que se dizia do Brasil – estava deitado eternamente em berço esplêndido. E nada de acordar.
Década após década, o futuro era adiado. Meu primeiro voto para presidente, em 1960, foi perdido. O presidente Jânio Quadros renunciou sem que se entendesse bem o motivo, o que gerou uma crise.
Poucos lembram, mas para tentar acalmar a nação o presidencialismo deu lugar ao parlamentarismo, que durou pouco tempo. O povo brasileiro sempre gostou de ser tutelado, e um regime em que o primeiro-ministro era provisório não agradava nem o povo nem os partidos. Queríamos um faraó.
Bolero de Ravel
É uma peça de música erudita (ou quase) em que uma mesma frase musical é repetida à exaustão. Sempre comparo o Brasil com o Bolero de Ravel.
Nunca o nosso país conseguiu ter normalidade institucional por mais de quatro ou cinco anos, sem algum tipo de crise. Quando não era a política, era a economia.

Chegamos a um ponto em que trocamos de moeda como se troca de cueca. Subimos e descemos a montanha da inflação e nem mesmo conseguimos ter uma infraestrutura minimamente decente.
Matamos as ferrovias e olhem o estado das nossas rodovias. Tínhamos transporte fluvial na primeira metade do século XX, e o abandonamos sem um motivo plausível. De novo, sem lógica num país ilógico.
A colcha de retalhos
Aos trancos e barrancos criamos, em 1988, uma Constituição que é mais uma colcha de retalhos, uma peça insana em que só se previa direitos e não deveres. E ela foi saudada como “Constituição Cidadã” pelo seu maior propagandista, que morreu a bordo de um helicóptero de uma empreiteira.
Imagem perfeita para um país que flerta com o desastre. Também retrato de um Legislativo com mais defeitos que virtudes. E de um Judiciário que se julga uma vestal romana. Mas não é.
Doenças contagiosas
Enfim, chegamos ao momento atual. Um banco que emitia papéis sem lastro, faroeste no mercado financeiro, um Ministério da Previdência imprevidente e um Instituto Nacional do Seguro Social que, nas horas vagas, logra aposentados e pensionistas com rombo superior a seis bilhões de reais e cujos maiores responsáveis estão sob sigilo.
Assim como as contas que foram irrigadas pelo Banco Master. E na esteira dele, outras instituições financeiras também são citadas.

Há temor de contágio como no tempo da pandemia. Pior, todo mundo mete a mão em tudo. Perdeu-se a vergonha e achou-se a cobiça.
Mare nostrum
Setenta e dois anos depois, o Brasil está cercado por outro Mar de Lama.
Cursos Senai RS
Sistema FIERGS oferece primeiro semestre gratuito em sete cursos de graduação na Faculdade de Tecnologia do Senai-RS.
Não há paz em nenhuma cidade com mais de um milhão de habitantes.
Pensamento do Dias