Um dos colégios de maior prestígio do estado foi o São Jacó, em Hamburgo Velho, Novo Hamburgo, hoje Feevale, por ter professores de ponta e internato para jovens do interior e de outros estados. Era caro.
Os Irmãos Maristas eram severos, e dois jovens tanto pintaram e bordaram que a inevitável colisão se deu em forma de suspensão por três dias. A gota d’água foi pular o muro de madrugada para namorar as internas do colégio feminino Santa Inês. Um era carioca e outro do interior gaúcho. E agora, o que dizer em casa?
O gaúcho não tinha coragem de encarar a fúria paterna, e o carioca tinha um tio médico em Porto Alegre, que morava na rua General Câmara. Então resolveram poupar o dinheiro da mesada viajando nos ônibus sempre superlotados da empresa Central driblando o cobrador que percorria Deus sabe como, o corredor para cobrar a passagem. A roleta ainda não existia.
Quando chegaram no apartamento, depararam-se com uma cena que não imaginavam nem nas mais loucas fantasias, como se verá no final dessa história.
O macete para dar curva no cobrador era descer na parada antes que ele chegasse. Isso feito, repetiam a operação até chegar em Porto Alegre. Levou horas, mas deu certo.
O esquema também era feito nos ônibus e bondes da Capital: Nos “eléctricos” era mais fácil, porque originalmente as quatro entradas não tinham portas a guarnecê-las. Por isso, e também pela superlotação, muitos passageiros viajavam pendurados nas entradas.
Eram chamados de pingentes, e vez que outra um veículo em sentido contrário os arremessava para o além. Poucos driblavam o cobrador, eis que a passagem era baratíssima.
Pois os nossos dois heróis chegaram ao apartamento do titio desta forma, e a custo zero. Sem saber como seriam recebidos e se poderiam ficar lá por três noites, o botão da campainha tremia como o dedo que o apertava.
Eis que a porta se abre e assomam duas belíssimas jovens. Olhando meio de revesguelha avistam-se mais três. Os sorrisos eram cordiais e era tudo que os dois na faixa de 16 para 17 anos queriam ver.
O edifício era conhecido como treme-treme, e o apartamento do titio estava lotado de senhoritas de vida airosa. Um harém, em suma. Cansado de dar milho para todas as pombas, o titio já meio velhusco fez um olhar de “sirvam-se”. Era tudo que eles e elas queriam ouvir.
Nunca alguém quis tanto uma suspensão de semana inteira.