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O burro e o professor

“El mundo fue y será una porquería, ya lo sé”.  Parte da letra do imortal tango Seiglo Veinte Cambalache, cantado por Carlos Gardel e composto, em 1935, por Enrique Santos Discépolo. Mais adiante ele fala que “vale más un burro que un gran professor”.

Em português, cambalacho tem o mesmo significado, negócio em que há fraude, trapaça. É familiar, não? É doloroso admitir, mas parece que essa é a tônica do Brasil destes tempos. Inclusive a parte do burro e o professor.

Nas últimas décadas, foi se acentuando uma inversão de valores que desaguam na falência moral e ética. Basta olharmos os jovens indisciplinados (nem todos ), que não obedecem os mestres e, se pudessem, viveriam para sempre debaixo das saias da mamãe. Temos aí um futuro incerto, cuja única certeza é que não vamos a lugar nenhum desse jeito.

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Claro que existe contaminação em larga escala na sociedade como um todo. Nós sabemos como funciona o Poder Legislativo, para ficar só nele. Sabemos que a espinha dorsal da política é o cambalacho. E que, mesmo as exceções, acabam como maçãs sadias colocadas junto às maçãs podres. 

Regras

Ou seja, está tudo dominado. O fracasso dos governos não se deve às regras político-partidárias, mas daqueles que as criaram. Como em um time de futebol, não adianta um treinador bom se o grupo todo é perna-de-pau. As instituições em recuperação judicial fatalmente acabarão em falência, já palpável e visível.

Esse quadro só não acaba mal porque o povo, esse ser abstrato que os maus políticos usam para se eleger e se promover via demagogia eleitoral, já está pronto para ser jogado no lixo da História. Mais uma vez recorro à música para exemplificar, a “Como dois e dois”, de Caetano Veloso: Tudo em volta está deserto tudo certo, tudo certo/Como dois e dois são cinco, meu amor

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A suprema ironia é que parte desse povo só sabe quanto é dois e dois usando a calculadora do celular ou a calculadora da caixa de atendentes em lojas do comércio. Não sabe de nada e se orgulha em nadar em um aquário muito pequeno.

A buzina como arma

Nos anos 1950, e falo dela porque eu a vivi como adolescente ingressando na faixa que chamamos de jovens, era comum ouvir de parentes e pais que o filho “lê demais e, por isso, não se prepara e irá mal na vida adulta”. O trabalho é o que interessava, leitura não interessava, era o resumo da ópera.

Como sabemos, ler nunca fez mal, aprende-se até lendo bula de remédio. Hoje vemos pais passando a mão nos filhos quando aprontam na escola ou na relação social. Um bom exemplo de como o brasileiro – pelo menos o de Porto Alegre – virou bicho é observar o trânsito da Capital.  

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Quando o automóvel ainda era um brinquedo novo, todos os motoristas tacavam a mão na buzina até sem necessidade, como em um congestionamento. Fomos ficando conscientes que esses gestos não resolvem o problema, e a buzina só era usada em caso de necessidade, além dos nervosinhos e nervosinhas de sempre. 

No entanto, da pandemia para cá, o que se ouve? Buzinadas e mais buzinadas sem necessidade. Em outras palavras, estamos involuindo. Em tudo.  

O divórcio como fim

O jornal O Globo publicou matéria mostrando que o número de divórcios já é maior que o número de casamentos no Brasil. Deve explicar alguma coisa. Mas ainda não sei bem se procede ou é apenas um indicador desses tempos de cizânia.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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