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A madrugada dos mortos

Amor é o que acontece entre um homem e uma mulher que não se conhecem muito bem. A frase é do – para mim – o maior contista da Inglaterra, W. Somerset Maugham. Aqui, ficou mais conhecido pelo livro que deu origem ao filme com o mesmo título “O fio da navalha”.

Seu texto é soberbo e seu conhecimento da alma humana, melhor ainda. Mas esta frase em particular me acompanha há décadas. Se eu fosse dos caras que vivem pedindo reflexão, eu diria que ela merece uma das profundas. É isso que acontece em boa parte dos casórios.

Se o dito do inglês já me impressionava desde que li suas obras, fiquei mais impressionado ainda quando ela foi reforçada numa noite, bem no início dos anos 1970, tendo como palco um ignominioso pé-sujo em uma transversal da avenida Ceará, que nem placa com nome tinha. Poucas mesas e cadeiras, sentávamos em sacos de arroz e feijão.

Cervejas geladas no balcão da Kibon, ventilador da geladeira raspando na proteção. Não esqueço do autor da fala, um bom vivant decadente e sem fundos. Decididamente não pertencia à sociedade das camisas com punhos de renda.  

Comemos uma galinhada feita com uma penosa de origem duvidosa preparada por ele, cujo apelido era Cambalacho. Ou seja, quase o título do tango Siglo Veinte Cambalache: “El mundo fue y será una porquería/ya lo se”).

Ele era divertido, mas as notas de amargor vestiam seus chistes com os guizos falsos da alegria. A certa altura, falamos de amores ganhos, amores perdidos, amores impossíveis – não consumados, por isso impossíveis – amores trágicos. Como vi que Cambalache usava uma aliança grossa, perguntei a ele como classificaria seu casamento, e quando conhecera sua mulher.

– A Marina? Não a conheço. A mulher por quem me apaixonei não existe mais.

Levou o copo de cerveja quente à boca.

 – Quando acordo olho para o lado e me pergunto, quem diabos será ela?

Ficamos em silêncio por algum tempo. Ao longe se ouviu um bonde corujão da linha IAPI rangendo nos trilhos, espantando os fantasmas das almas perdidas, que queriam ter pelo menos um pouco de privacidade.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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