Se hoje o Centro de Porto Alegre foi tomado por camelôs e ambulantes que não ambulam, no passado era um oásis para a classe média-média e alta, que lá iam para as compras de roupas e calçados em lojas de grife. A Casa Lyra, por exemplo, defronte à Galeria Chaves, vendia lançamentos de perfumes franceses na mesma semana em que eram lançados em Paris.
A Casa Louro era outra loja classe A. Para os homens, a Taft atraia a rapaziada com suas camisas, blusas e calçados Terra e Samello, que duravam décadas. E o Clark era clássico, preto, não deformavam nem em dilúvio.
A televisão era incipiente, então se ia muito aos cinemas do Centro, tempo de salas luxuosas e lançamentos recentes. Cacique, Rex, Imperial, Guarani e Vitória eram os favoritos. Lembro como se fosse hoje do filme e da música tema de A Volta do Mundo em 80 dias, melodia belíssima, no Cine Rex.
O clima, o glamour estava no ar. Churrascaria Quero Quero, restaurantes Napoleon, Spaghettilândia, e o tradicional Treviso no Mercado Pùblico tinham públicos próprios – o Treviso abria toda a madrugada, ponto de encontro da gente da noite. Lembro de um prato de levantar defunto, canja de galinha com ovos nonatos, saídos das galinhas recém abatidas. O cozinheiro usava chonchas para tirar as gemas.
Bem, acabou-se o que era doce. Nunca mais. Só temos uma vida, para o bem ou para o mal.