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Uma atividade quase esquecida de Xico Stockinger

Estou remodelando meu escritório, embora goste muito dele e dos seus móveis. O problema é que os cupins também gostaram e eles são reconhecidamente mais operosos que eu, não jantam fora, nem vão ao cinema; teatro nem pensar e provavelmente não apreciam jazz, o que é mais grave. Consequentemente, cavocam 24hs dia por dia.

Passei alguns produtos, mas é como dar Melhoral para quem tem câncer. Depois que sumiram com o pó da China nada mais os segura e se o pó ainda existisse, nós iríamos junto com eles para o além. A poeira e o barulho me irritam, mas daquelas gavetas quase sem fundo surgem coisas raras, como este artigo da Revista Press.

Uma atividade quase esquecida de Xico StockingerTenho só a página que reproduzi ao lado, não sei quem assinou. Provavelmente o próprio Julio Ribeiro. Liguei para ele, mas está em B.A. dançando tangos e comendo empanadas. Que inveja!

Dividi o texto em duas partes para que nada se perca, vela a pena ler! Como você já viu, é sobre o Xico com X, até nisso era único. O Xico além de talentoso, era alegre, divertido e bom cozinheiro. Mesmo assim, lembro que, em uma noite, em seu ateliê, fizemos um bauru agauchado, mais por falta de tudo no seu ateliê e sem vontade de sair, ele tostou as linguiças com o mesmo maçarico que produziu touros, guerreiros e guerreiras e…. uma tartaruga (para a Eucatex ou a Duraplac, não lembro).

O que ilustra a página “Uma atividade quase esquecida de Xico Stockinger” (este é o título original)

A distância que separa a avenida São Pedro da rua Pelotas é de uns 2 mil metros. Em 1954, o magérrimo Xico Stockinger frequentemente fazia o percurso a pé, na madrugada, entre a redação do jornal e sua casa. Ele recém tinha chegado do Rio de Janeiro, já ensaiava algumas esculturas, mas, naquele tempo, trabalhar em jornal ainda era mais rentável que ser escultor. Mesmo assim, o último bonde passava antes da última dose.

Essa é uma atividade que praticamente ficou esquecida na biografia do escultor falecido em abril de 2009. No entanto ele adorava. Tanto que só conseguiu abandonar o jornalismo dois anos depois de tomar a decisão de dedicar-se somente à arte.

Xico era austríaco, da cidade de Traun, nasceu no dia 7 de agosto de 1919 e, dois anos depois, chegou ao Brasil. Morou no interior, em fazenda de café, na capital de São Paulo e no Rio de Janeiro, foi aviador e meteorologista numa empresa de aviação da época.

O fotógrafo Flávio Del Mese foi um de seus melhores amigos, o melhor, segundo o jornalista Ney Gastal, por 50 anos: conhece muito da biografia de Xico. Quando decidiu ser escultor, Xico procurou um ateliê no Rio de Janeiro. O método de aprender era reproduzir em desenho o busto de um pensador clássico. Conta Flávio: “Cada dia de um ângulo diferente. Depois de umas 15 aulas desenhando o busto de Sócrates, o Xico não aguentou e foi embora”. Passam os anos. Um dia caminhando perto do Catete, no Rio de Janeiro, Xico encontra outra escola de pintura. Matricula-se “e o que encontra na sala?”, pergunta Del Mese. Óbvio: “Um busto de Sócrates para desenhar. Ele mandou professor e busto para bem longe e nunca mais voltou”. Em compensação, tornou-se amigo e discípulo de personagens como Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Maria Leontina e Iberê Camargo, que também morava no Rio de Janeiro.

No início dos anos de 1950, Xico fazia desenhos e charges para a Última Hora, e, numa das visitas à redação, encontrou o então ilustrador e diagramador Vitório Gheno fazendo estágio para um novo jornal que seria lançado em Porto Alegre, A Hora. Pediu demissão e transferiu-se para Porto Alegre junto com o Gheno.

Houve dois incêndios históricos em Porto Alegre, em 1954. O primeiro foi na sede das oficinas e redação do Diário de Notícias, em 24 de agosto, quando o presidente Getúlio Vargas suicidou-se, causado por uma multidão revoltada e convencida de que o culpado pela morte era Assis Chateaubriand, dono dos Diários e Emissoras Associados. O segundo aconteceu dia 28 de novembro. Uma masmorra construída em 1850, na ponta do Gasômetro, chamada Casa de Correção, ardeu por 20 horas, ameaçando a vida dos detentos. Pois A Hora surgiu justamente enquanto o Diário de Notícias ficou sem circular (até março do ano seguinte) e com a pretensão de conquistar seus eleitores. E a primeira manchete, em 30 de novembro de 1954, foi sobre o incêndio da Casa de Correção.

Além de estrear com uma grande matéria, conta Lauro Schirmer, autor do livro A Hora, uma revolução na imprensa, o jornal renova-se: “Todas as páginas eram diagramadas, sem matérias interrompidas que continuassem em outras páginas”.
Anos depois, numa entrevista ao jornalista Ney Gastal, no Correio do Povo de 27 de junho de 1982, Xico Stockinger recordava: “Era divertido. Eu montava a página no espelho e mandava para a oficina. Estava pronta a diagramação. Depois, a gente ficava a noite inteira tentando meter a matéria na página.”

Mas não foi o único trabalho de Xico no jornal. Outro foi a ilustração a cores. Ele produziu uma galeria histórica de ilustrações coloridas de jogadores de futebol publicadas nas páginas esportivas das edições dominicais. O trabalho paralelo de artista plástico continuava. Em 1956, por exemplo, foi eleito presidente da Associação Rio-Grandense de Artes Plásticas Francisco Lisboa. “Ele fazia uns cinzeiros de louça”, diz Del Mese. Faltava algum tempo para os guerreiros e o trabalho em bronze, em ferro e em madeira.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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