Janeiro de 2050. Um homem entra na farmácia. O atendente chega com uniforme branquíssimo que se autolava a cada 15 minutos. As mãos e o rosto estão envoltas em uma nuvem cor de rosa de desinfetante.
– Pois não?
– Vocês têm fígado?
– Sim. De primeira qualidade? O senhor bebe?
– Muito. Demais.
– Então seria bom comprar um pâncreas também.
– Instalam na hora?
– Claro. Inserimos tudo em 25 minutos. Se levar um rim, 20% de desconto.
O homem fica pensativo.
– Meus rins estão ok. Mas precisaria de um ouvido.
– Com ou sem orelha?
– Sem.
– Pena, nossas orelhas são autolimpantes.
Ele faz uma pausa.
– Olhos, nariz? Temos seminovos, mais em conta.
O farmacêutico se curva em direção ao cliente e fala bem baixinho.
– E na parte de baixo, tudo certo? –
– Poderia trocar, mas cheguei no meu limite. Garantia?
– Três anos. Temos um excelente pós-venda.
O farmacêutico mostra num holograma o valor total.
– Pode ser em dólar?
– Só em yuans chineses. O dólar não vale mais nada.
Nem meia hora depois, o cliente sai da maca do ambulatório, caminha até o primeiro bar que encontra aberto, entra e enche a cara. Acorda com uma tremenda ressaca. Esqueceu de incluir o kit Engov no pacote.