Tristeza
Por favor vá embora
É minha alma que chora
Era assim que eu me sentia em uma manhã de inverno de 1969. Um dos tantos momentos em que um flash de máquina fotográfica espoucou na minha mente – e eternizou meu estado de espírito ao ouvir a música do compositor Niltinho – quando tomava banho no apartamento 21 do número 533 da rua Duque de Caxias.
Posso descrever até hoje como eu me sentia com o banheiro enfumaçado por vapor d’água, e me descrever como se me visse por fora. Como são intrincados os mecanismos da mente que deletam algumas lembranças e marcam outras, como o ferro em brasa com a marca do dono deixa o couro do boi fumegante.
Quando se é novo, e foi o caso neste episódio, as desesperanças logo ficam para trás, e as esperanças aparecem à frente como rocha sólida. O curioso é que não lembro o motivo da minha desdita. Mas é certo que a música foi como ferro em brasa. Assim como outras composições isolaram sentimentos e situações.
Anos antes, os festivais de música da Record que revelaram ou ratificaram talentos como Chico Buarque e A Banda, Edu Lobo, Geraldo Vandré com sua Disparada, e Gilberto Gil com o Domingo no Parque, mais Caetano Velloso caminhando sem lenço nem documento.
Foram tempos de renovação da música popular brasileira. Quando ouvi A Banda, estava jantando com uma colega de faculdade na casa dela.
Domingo no Parque me pegou de primeira, embora da primeira vez tenha achado a música estranhíssima, no sentido castelhano da palavra. De certa forma, A Banda é o fim de uma época de ingenuidade e a entrada nos duros tempos de um Brasil diferente que procurava se achar – não se achou até hoje.
Eu curtia muito Noel Rosa naquele tempo. Foi um gênio que morreu cedo, uma alma jocosa, mas destroçada por amores com desfechos cruéis. Então saíam obras-primas como Felicidade:
Eu fico triste
Quando vejo alguém contente
Tenho inveja desta gente
Que não sabe o que é sofrer
Ao mesmo tempo em que se lastimava, o Poeta da Vila sabia bem das dureza da vida.
João ninguém
Que não é velho nem moço
Come bastante no almoço
Pra esquecer de jantar
Noel me acompanhou por longo tempo, naqueles anos que misturavam alegrias e tristezas, mais as primeiras que as segundas. O dinheiro era pouco, a esperança era muita. E de mim diziam que eu era um sujeito de bem com a vida, sempre espirituoso e de riso fácil. Bem, sim e não. Como diz um provérbio de favela, “quem admira as cachaças que bebo não sabe os tombos que levo”.
Posso dizer que, já naquela época, eu suspeitava que o Brasil era um país irresponsável e que, para ser uma nação de verdade, faltava-nos tenência e qualidade. Os governos sempre são um retrato de quem o pôs lá.
Mas no fim, tudo acaba bem e, se não está bem, é porque não chegou ao fim. Resta cantar a última frase da música que inicia estas mal traçadas:
– Quero de novo sambar.