Antes que a voragem da República dos Camelôs tomasse conta do Centro de Porto Alegre, ainda se curtia o cafezinho à moda antiga e se lanchava, como era moda dizer. Foram os revoltos anos 1970, na metade deles, marcados por dois templos dos longos papos molhados pelos cafezinhos em xícaras pequenas no Rihan e no Haiti.
O Rihan ficava na Andradas onde hoje é a Panvel do Calçadão e o Haiti, que hoje é restaurante, era na Otávio Rocha quase esquina com Dr. Flores. Este último era muito frequentado por comerciantes da região, muitos libaneses, judeus e palestinos vivendo em harmonia. Lembro de um palestino que só bebia cafezinho com um tiquinho de leite.
– Me dá um cafezínio bingado – falava para a caixa.
– O amigo é palestino né?
– Como divinhou?
Mas o templo-mór do cafezinho xícara pequena era o Rihan, que chegou a vender quatro mil por dia. Era um point.
Frequentado por políticos de todos os matizes, tinha demanda tão alta que era comum a conversa iniciar ou terminar no leito da Rua da Praia. Era comum ver deputados, governadores, senadores em animada e, por vezes, acalorada conversa. De certa forma era o berço da democracia.
Era um vício esse amigão. Rodas e tribos batiam ponto diariamente. Entre os tipos peculiares chamavam atenção duas figuras.
O Tenente Olmerindo Silva com seu longo e surrado capote cinza – ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na II Guerra Mundial, Olmerindo foi um dos únicos tipos populares do centro com trilha sonora, assobiando constantemente, sua assinatura musical, por assim dizer. Era corretor de seguros e muito conhecido em todo o interior do estado, graças ao assobiar constante e o manto sagrado que parecia ter participado na tomada do Monte Castelo, na Itália de 1944, de tão bombardeado que era.
Outra figura no cafezinho do Rihan era o libanês Hamid El Iskandar, também alto e também sempre com seu longo capote, mais um charuto apagado na boca. Sua assinatura labial, por assim dizer. Certa vez o encontrei com um enorme caroço vermelho na bochecha. Ele explicou a origem do machucado.
– Basarínio breto fez bzzz em Hamid.
Tradução: passarinho preto era a vespa que o picou. Cumpre explicar que o Rihan também era lancheria.
Naquele tempo, como dizia Jesus, lanches presenciais eram dois, o bauru e a pizza brotinho, uma pizza pequena. Broto ou brotinho também significava garota em transição de menina para mulher, tão bem cantada por Miltinho (Você menina moça/Mais menina que mulher).
Outro lanche preferencial era o bauru, destronado pela mesmice do xis. Bife de verdade, queijo, tomate em pão cervejinha, e não essa coisa adocicada em que botam carne moída e socada, de origem duvidosa.
E, claro, uma das melhores invenções da humanidade em todos os tempos, o sanduíche Farroupilha – manteiga, presunto, queijo, sepultados em um cacetinho recém saído do forno.
Consta que este sanduíche será servido no Dia do Juízo Final, com café recém-passado e fumegante em caneca esmaltada. Mas só para os que passarem no teste.
O resto vai comer torrada fria de apresuntado com queijo de lecitina de soja. E margarina.