Por una cabeza, de un noble potrillo
Que justo en la raya, afloja al llegar
Y que al regresar, parece decir
No olvides, hermano
Vos sabes, no hay que jugar
A música é a única arte que arrebata, transporta para lugares que até foram esquecidos mas que de alguma forma formaram emoções eternas. Este tango, composto por Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, me fez chorar ontem. Não me envergonho de confessar.
Estava em almoço de entidade empresarial, e três adolescentes de uma escola de formação de músicos executaram o tango. Dois violinos e um violoncelo, que são a alma do tango juntamente com o bandoneon.
O tango é um sentimento triste que se baila, já foi dito. E o que ele tem de maravilhoso é a melodia. Não necessariamente a letra.
Pois foi ela que me transportou para o Alegrete de 50 anos atrás, amigos e parentes da minha mulher já falecidos, o Bar Bacachari do seu Romeo – perto do edifício da dona Biba, avó da minha mulher, paisagens da cidade e do campo e na imensidão do Alegrete. Além disso, fui levado às noites ao pé da lareira a 50 quilômetros da cidade, ouvindo as emissoras de rádio argentinas, com o doberman Thor dormindo aos meus pés, aquecendo com seu corpanzil a cadelinha Plac e seu marido Plic.
Por um mistério dos subterrâneos da mente, vi-me em um trem húngaro dos anos 1980, em trechos de pequenas vilas, varando a escuridão, passando por um poste solitário com uma lâmpada mal e mal alumiando o chão.
Quando me dei conta, estava com os olhos marejados. Fingi um cisco no olho para disfarçar, enquanto a música reboava na minha mente. E assim fui rodando dentro dela pelo resto do dia.
Mistérios da música, mistérios da cabeça à procura dos tempos perdidos, cheiros, sons e cores que vem e vão em frações de segundos. Vá explicar.