Todas as quintas-feiras, um grupo de sambistas da velha guarda se reúne no cantinho do Largo Glênio Peres, no centro de Porto Alegre. Coincidentemente, ao lado do antigo abrigo dos bondes, que eles tão bem conheciam.

Nada de sertanejo universitário e esses conjuntos de falsos pagodes. É samba raiz. O combustível das rodas de samba é a cerveja. Eles merecem ser abastecidos com ela.
O fazendeiro de rua
Nos anos 1970, na altura da rua Santo Antônio, antes que os sem-teto se multiplicassem, um grupo deles o ouvia contando histórias de vida e de morte por horas a fio. Todos muito atentos, por sinal.
Fornecia bebida de boa qualidade para a tchurma, e várias vezes vi que era uísque de boa marca. A garrafa ia de boca em boca.

Em outras ocasiões, ele e sua tropa permaneciam no começo da rua, esquina com Farrapos. Eu abastecia meu carro no posto lindeiro, e meu queixo caía quando vi como o tratavam.
O café no capricho
Cedo de manhã, eles arrumaram uma mesa improvisada com uma toalha desbotada, mas limpa. E, na frente do cara, deixavam pães e o que parecia ser manteiga e café em garrafa.

Que estranho mundo ele criou para si e para seus irmãos desistentes de vida, que o tratavam como a maior referência. Então fui atrás para tentar descobrir o que foi que o deixou assim, leia a seguir.
As duas vidas do fazendeiro
Como bom repórter que sempre fui, descobri que o fazendeiro de rua morara com sua mãe em um bom apartamento. Ela tinha uma fazenda de bom tamanho, e o filho tocava a propriedade em algum lugar da Campanha.
Um golpe do destino, uma desilusão amorosa e lá se foi ele deixando tudo para trás. Esporadicamente visitava a mãe e conseguia bebida e dinheiro. Isso feito, voltava aos seus amigos sem certidão de nascimento, sem lenço nem documento com atestado de residência na Rua da Amargura.

Anos depois sumiu. Não consegui saber o que houve com ele.
O sentido da guerra
“A guerra é um lugar em que jovens, que não se conhecem e não se odeiam, matam-se entre si, por decisão de velhos que se conhecem, se odeiam, mas não se matam“. (Erich Hartmann, piloto de caça alemão na II Guerra Mundial)
Vá e acorde sua sorte, mas veja se o azar não dorme com ela.
Pensamento do Dias