Publiquei na minha página Começo de Conversa, no Jornal do Comércio, a fachada do Cine Teatro Presidente, que nos deixou por volta de 1980. Como o nome dizia, trazia boas peças, e Porto Alegre tinha poucos cine-teatros.

Também havia duas atrações que me encantavam nos anos 1960. Do lado direito de quem olha, ficava a lancheria Centro Esportivo, que vendia o melhor bauru da cidade – lembram do bauru? Com três camadas de pão prensado, queijo, tomate e lombinho. Era de se comer ajoelhado.
Do lado esquerdo, a Galeteria Scur, com uma das melhores massas da cidade. Para minha satisfação, recebi um email de Roosevelt Scur, da família dessa galeteria, e ele também gostava do bauru com três fatias de pão de sanduíche dos grandes grelhados. Ele não conseguia imitar o do Centro Esportivo.
Os desaparecidos nunca encontrados
Da mesma forma, não houve quem conseguisse imitar o picadinho Maria Luiza do extinto restaurante Treviso, carne com ovo que grudava nos pedaços. O puchero do Restaurante Dona Maria foi outro defunto que ninguém conseguiu ressuscitar.

Essa é uma das tantas desgraças que os velhos – idoso é quem não trabalha mais – lamentam. O sanduíche de pernil fatiado na hora, com molho de cachorro-quente da Padaria Matheus, também não deixou filhos.
Cito apenas estes exemplos, mais não consigo para não chorar. Eu e minhas papilas gustativas.
O país da jogatina
Um levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes) mostra que 34% dos brasileiros entre 18 e 35 anos que pretendiam iniciar uma graduação em 2025 adiaram os planos por estarem com a renda comprometida com jogos de azar virtuais. O montante representa cerca de 986 mil pessoas. O índice é ainda mais elevado entre jovens das classes D e E, chegando a 41%, e em regiões como o Nordeste (44%) e Sudeste (41%).
Os números acendem um alerta entre especialistas em saúde mental. “Estamos diante de uma epidemia silenciosa. As bets não são apenas um passatempo, mas um gatilho poderoso para transtornos como ansiedade, depressão, insônia, compulsão e até pensamentos suicidas”, afirma Mário Lopes, especialista em Saúde Mental.
O Brasil do futuro
Estamos em uma encruzilhada que põe o futuro do Brasil em cheque. Um país a reboque dos outros e sem massa crítica de pensadores, cientistas, sábios que desde jovens já mostravam pendor para muito além da mediocridade.

Sabemos como os jovens de hoje são desatentos, cuja maior preocupação é ter celular novo para trocar tricas e futricas com colegas. Evidentemente, não são todos. Entretanto, o número dos que sabem das coisas é pequeno em relação aos cabeças de vento que pensam que dinheiro dá em árvore. Dinheiro e futuro.
Uma presença assustadora
Vou muito ao Centro de Porto Alegre. E o que me chama atenção é o grande número de pessoas de todas as idades com algum tipo de deficiência.
Como a região empobreceu, não há mais classe média-média e média alta. São pessoas de baixa renda mesmo, com muletas, bengalas, pernas atrofiadas, crianças com má formação física e que não tiveram acesso aos milagres da medicina.
Para dizer a verdade, até que o SUS é um milagre brasileiro. Dá conta do recado desde que não se procure um especialista. Aí a consulta leva dois, três ou mais anos. É deles que estou falando.
A esperança é a penúltima que morre.
Pensamento do Dias