Na Porto Alegre dos anos 1960, houve um breve surto de assaltos a bar-chopes. Lembro de um em 1967. Um bocado de assaltantes do primeiro time estaca nas ruas, nomes temíveis como Orelha de Burro I, Orelha de Burro II, Mina Velha, Julinho entre outros, que escaparam em bloco do famoso Porão da 8a. Delegacia de Polícia.
Um deles foi perpetrado no Bar Escandinávia, na Coronel Bordini. Um frequentador, um Delegado de Polícia do segundo time, saiu um pouco antes do assalto. Aliás, havia outro delegado que só trabalhava na retaguarda, sempre em postos burocráticos, nunca deu um tiro. Dele dizia-se que a única prisão que fez foi prisão de ventre.
Voltanto à vaca fria. Temeroso que não tivesse tanta sorte, de outra vez, o delegado passou a andar dia e noite com uma Bíblia a tiracolo. O que faz um cagaço, pensamos nós, a ponto de transformar um agnóstico em cristão fervoroso até em mesa de bar.
Não era volume grande, pouco maior que edição de bolso. Não deixava de ser engraçado, Bíblia numa mão, copo de chope na outra. Só que não era por religiosidade que o policial carregava o livro sagrado.
Na cavidade do miolo cuidadosamente recortado, repousava uma pequena e mortal automática Browning.