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Do chumbo ao GPT

Assim como existe gente que atravessou duas Guerras Mundiais eu me considero um sobrevivente dos tempos do jornalismo heroico até as firulas e plataformas que permitem melhorar tudo desde que tenha uma base cultural sólida. Caso não a tenha, é o mesmo que ser atendente de uma birosca de fim de linha que pensa que sabe. No entanto, nada em um aquário muito pequeno e não sabe coisa alguma.

Bem, atravessei incólume as três grandes fases do jornalismo moderno. Antes que alguém faça graçola dizendo que sou do tempo do Gutenberg, respondo que sim, foi meu tio, infeliz.

Em 1968, no começo de tudo, peguei as linotipos usadas para a chamada impressão a quente. Eram gigantescas máquinas de escrever que usavam chumbo derretido a fim de formatar as letras e frases para posterior impressão.

Aos operadores destas máquinas, havia o risco de contrair a doença chamada saturnismo. Isso porque o chumbo tem ponto de fusão baixo e os vapores entram na circulação sanguínea e se alojam nas articulações e terminais do corpo.

Um inferno, cuja única prevenção – até por aí – era beber dois litros de leite por dia. Felizmente, para nós jornalistas esse risco era remoto, porque se trabalhava longe das linotipos. Mas que dava um medinho, lá isso dava.

A segunda fase começou aqui, na virada para a década de 1970, com a chamada impressão a frio, sistema off set que dispensava essa coisarada toda de linotipos. Ela teve vários aperfeiçoamentos até meados dos anos 1980, quando, aos poucos, as redações informatizaram o sistema.

Parecia um computador de hoje, com a diferença que ainda não existia a internet. Então, era uma máquina de escrever eletrônica, cujos textos iam direto para a composição. Queimava etapas uma barbaridade. A tela podia ser repartida ao meio. E, na outra metade, entravam as agências de notícias, facilitando a transposição de textos.

Já foi uma grande novidade. Na época, não se imaginava que haveria um computador para cada pessoa. E muito menos com celular e smartphone. 

Em meados dos anos 1980, o presidente da então poderosa IBM, hoje reduzida a um trapo, veio a Porto Alegre. Na entrevista coletiva, perguntei a ele se o advento do computador eliminaria o consumo de papel. Ao contrário, falou ele, vai aumentar. O gringo sabia das coisas.

Assim passaram-se os anos com aperfeiçoamentos. Até que surgiu o PC (Personal Computer). O primeiro sistema operacional foi o 262, uma lesma com artrite de tão lento, no final dos anos 1990.

Não levou muito e, FIAT LUX,  veio a internet e o site de buscas, o poderoso Google, o salvador. Imaginem o que isso  deu ganho de tempo para os humanos. Quanto tempo, dias, semanas, gastava-se indo para bibliotecas, universidades, professores e intelectuais. Tudo substituído por uma frase dedilhada no Google.

Por fim, mas que ainda chegou ao fim, temos o Chat GPT e a Inteligência Artificial. O Chat é para preguiçosos, burros e analfabetos funcionais.

Ou seja, é uma espécie de retrato de parte da sociedade de hoje. Estamos emburrecendo e deixando emburrecer. Você pode escrever horas sobre Shakespeare sem nem saber quem ele foi.

Lamento de um velho ultrapassado? Pode ser. Mas se um dia faltar luz e não tiver bateria eu me viro. Então eu serei o Chat GPT caso um nanico com meio cérebro me pergunte quem foi e o que escreveu William Shakespeare, cognominado O Bardo.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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