O passado bom sempre é mais tranquilo, diria o conselheiro Acácio, personagem de Eça de Queiroz, que só dizia obviedades. Pois nestes tempos de um mundo turbulento, um Brasil meio que perdido na poeira e uma Porto Alegre que já viveu tempos de glória, essa afirmação traz a saudade da capital gaúcha. Aquela que tinha uma área central pulsante e bela de dia e de noite, sem medo de fantasmas de arma em punho.
Particularmente recordo dos anos 1960, quando a cidade teve seu apogeu para entrar em declínio depois dos anos 1970, com ênfase nos anos 1990. Nunca mais se aprumou.
Os bares de hotéis, restaurantes e bar-chopes, que era maioria nos bairros fora do Centro, abrigavam a população que se recusava a ir para casa depois do horário comercial. Lembro do restaurante Napoleon, cujo dono foi mordomo do armador grego Aristóteles Onassis, casado com Jaqueline Onassis depois de viúva de John Kennedy.
Além dele, as churrascarias Quero Quero e Churrasquita, da Spaghettilândia, na Travessa Acelino de Carvalho, muito frequentada nos almoços. Na época bebia-se uma taça de vinho “clarete” ao meio-dia, algo entre vinho tinto e rosé.
O uísque foi bebida da moda depois, nos anos 1970. Nos anos 1960, bebiam-se drinques que hoje quase desapareceram, como o Gim Fizz, com açúcar e suco de limão na borda do copo grande. Cuba Libre, rum com Coca-Cola, não era de bom tom beber em lugares chiques, como diziam os colunistas sociais. Pobre tomava Samba, cachaça com Coca-Cola.
Os bares de hotéis não varavam a madrugada como os bares de bairro, o forte era após as 18h até antes da meia-noite. Listo o bar do Plazinha (da família Schmitt), com suas cadeiras de espaldar alto, no hotel Plaza Porto Alegre da rua Senhor dos Passos. Também havia o bar do Hotel Embaixador (de Sizenando Venturini), na rua Jerônimo Coelho, o bar do City Hotel (de Fernando Dexheimer Kessler), na José Montaury, e em segundo plano o snack bar do Plaza São Rafael (com sua enorme Mercedes do patriarca João Schmidt sempre na frente).
Existiam outros menos votados, como o do Lido Hotel, e os que desapareceram na voragem dos tempos, como o PH ( de Pretto Hotel) na avenida Salgado Filho. Cada um deles tinha o que vou chamar de tribo, fregueses cativos.
O do City Hotel e o Plazinha eram os preferidos por fazendeiros. Neste último, era comum ver um pecuarista alegretense apelidado de Bolão de Ouro, dono de vastos campos, sempre com seu sobrinho.
Na rua Riachuelo, reinava soberano o Bar e Rotisserie Pelotense, na rua Marechal Floriano era o Montanhês, do português Álvaro Monteiro; na Churrasquita, Na mesma rua, ficou famoso outro alegretense, o major Pedro Olímpio Pires, também abastado pecuarista.
Certa vez, o major doou uma vaca para seu segurança e horas depois a recomprou por um bom dinheiro porque o presenteado não tinha campo para iniciar uma criação. Isso depois der copiosas lágrimas de ambos após algumas tantas doses de uísque.
Uma tradição que acabou – porque o Centro Histórico de Porto Alegre terminou – foram as feijoadas de sábados, que não passaram muito dos anos 1980. A campeã era a do Plazinha.
Uma pena o prédio do hotel hoje ser quase um pardieiro. É interessante porém melancólico observar que as abastadas famílias porto-alegrenses foram empobrecendo ou quebrando. Algumas delas, donas de bons hotéis na cidade. Verdade que muitos eram falsos brilhantes.
Hoje, quando vejo a área central tomada por camelôs e sem muita esperança que ela possa ser revitalizada como pretende a prefeitura – que não diz como iria operar esse milagre, ainda mais depois da enchente de 2024, que molhou muitas esperanças e desejos de investidores. Sinto hoje que vivi o melhor tempo de Porto Alegre.
Se tenho um lamento é não tê-la vivido nos anos 1950. A triste verdade é que a classe média foi expulsa do Centro nos anos 1990, que hoje se deslocou para bairros e shopping centers.
O futuro será chinês e asiático. Não duvido que a Rua da Praia mude de nome para Rua China em algum momento do futuro.