Para a juventude de hoje e mesmo para os mais maduros, arrumar uma namorada não é difícil, desde que o requerente tenha um mínimo de aparência e uma conversa razoável. Como sabemos, o ponto G fica no ouvido.
Bem diferente dos anos 1950 e 1960. O divisor de águas foi em em torno de 1968, com Woodstock, a pílula contraceptiva e o “faça o amor e não a guerra”.
Naqueles tempos bicudos, visitar a toca da onça era difícil, excetuando aqueles beneficiados bons de trova com automóvel e boa conta corrente. Claro que não resolve a solidão, mas para o “ficar” quebrava o galho.
Para efeitos didáticos, eram três os fronts para namorar e depois casar. Para as cidades pequenas do interior, essa visita demandava tempo e paciência, mais ainda para o que abreviamos como a roça. Era bem mais fácil na cidade grande. Detalhe: eram pouquíssimos os motéis naqueles anos. Tinha que se virar nos 30.
Na roça, com distâncias grandes, tudo começava na missa aos domingos ou nas festas da igreja. Porta de entrada para voos maiores e mais fundos.
Mas a paixão, ah a paixão, esta é camaleônica. Traveste-se de amor quando, por baixo dos panos, é testosterona em estado líquido.
Depois de um bom par de meses, pretendente e pretendida passavam de mãos dadas para amassos na cozinha sob o olhar vigilante de uma tia solteirona da guria. E sempre tinha uma. Claro que, com devida licença dos severos pais, o pai sempre perguntava “quais são as suas intenções?”
Já na cidade, a missa dominical era substituída pelos bailes nos clubes sociais. Reuniões debates também ajudavam. Quanto mais a onça se mostrava recalcitrante em permitir incursões na floresta virgem, mais desejo despertava para a rapaziada.
Mas um dia a casa cai, fosse por insistência ou descuido. Já na cidade grande, os clubes também desempenhavam papel vital, mas se não fosse assim, a saída do colégio e os bar-chopes aproximam as partes de baixo graças ao vudu do álcool, esse grande derrubador de barreiras. Ter automóvel, cursar Medicina e ter pai rico era meio caminho andado.
Vou contar uma historinha sobre aproximações curtas e reta final. Procurar domésticas era um belo atalho, de preferência quando os patrões não estavam em casa.
Num final de tarde de verão, encostei minha Vespa – sim, duas rodas quebravam o galho no portão de uma bela casa na rua Dr Timóteo. Uma zinha arrodeava as chaves nos dedos como se fosse a patroa.
Depois de uma aproximação por instrumentos veio aquele papo cretino, nome, de onde veio, quais músicas gostava blá blá blá. Em dado momento perguntei onde ela veraneava.
– Canoas.
– Como é que é? Canoas não tem praia!
– Como que não? Capão das Canoas!
Seja como for, naquela noite conheci a toca da onça da veranista de Canoas.