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A picareta mágica

 O Estraga Tudo tinha um longo histórico de trapalhadas, um Mister Bean que deu mais errado ainda. Nasceu com defeito de fabricação tanto na parte mecânica quanto na eletrônica. Os neurônios viviam colados igual a relé. O pior é que desde criança ele gostava de manejar picaretas. Ganhou a primeira com seis anos e, no dia seguinte, já estripou a professora sem querer e furou o balão gástrico do tio.

  Como era uma temeridade empregá-lo, o padrinho do rapaz, um empreiteiro especialista em abrir túneis contratou-o para não fazer nada. Ele ficava na obra com a picareta de prontidão e era só. Um dia a empresa do padrinho venceu uma licitação em forma de consórcio para abrir um túnel em uma montanha complicada.

   A obra foi atacada de ambos os lados. Um de lá e outro de cá queriam se encontrar bem no meio da montanha. Quando faltavam uns 50 metros, apareceu uma enorme pedra no meio do caminho. Os geólogos advertiram que nada poderia ser feito, que a montanha inteira poderia desabar caso ela fosse explodida, furada ou fatiada.   

   Dezenas de engenheiros internacionais foram chamados às pressas. Depois de alguns exames, todos eles sacudiam a cabeça na linguagem internacional de “não tem jeito”. O patrão do Estraga Tudo discordou. Chamou o afilhado e com as mãos em concha murmurou algumas palavras no ouvido do sujeito, que ao final o fitava com os olhos arregalados.   

   O empreiteiro fez um sinal com a cabeça e o Estraga Tudo se aproximou da bora da pedra com sua picareta. Colocou-a a um centímetro da rocha e esperou. O padrinho fez sim com a cabeça. Estraga tudo desferiu uma levíssima batida com a picareta.

   A rocha se desmanchou em pedacinhos inofensivos. Quase farinha. Aplausos demorados, choros de alívio, todos gritaram “tu é o cara!”. Quando a poeira baixou, o presidente do consórcio chamou o patrão do Estraga Tudo.

   – O que foi que murmuraste no ouvido dele que resultou nesse milagre?

   – Simples. Disse pro Estraga Tudo para ir na rocha e tirar só uma lasquinha com a picareta, só uma lasquinha.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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