Quando tinha sete anos, eu queria ser ferreiro. Vibrava com o ferro em brasa e as vigorosas marteladas que o transformavam em alguma ferramenta agrícola e também ferraduras e partes metálicas dos arreios.
Por isso, eu frequentava a ferraria dos Seibert, Harry Lothário em especial, em São Vendelino. A 10/12 quilômetros dali, em linha reta, a Tramontina já fabricava o kit completo.
Harry era o que chamamos de empreendedor. Depois virou vereador e vice-prefeito. Faleceu aos 87 anos em 2022.
No final dos anos 90 ele me descobriu fazendo a página 3 do JC. Demos boas risadas falando dos tempos antigos.
Ele não se lembrava, mas aí por 1951 comprou uma moto alemã subnutrida, cujo nome fixado em letreiro vertical, no parachoque dianteiro, era Zundapp. Um motorzinho miserável de 1 HP.
O motor raquítico emitia um enorme barulho, bem coisa de baixinho invocado. O Harry se deitava em posição horizontal e ia e vinha; na entrada do Chico Pedro, hoje Vale Suíço, voltava para a vila. E não subia lomba acentuada.
Certo dia, perguntei quando compraria uma moto de verdade. Ele me olhou, e rosnou.
– Du rotz lefel!
Ser chamado de ranhento em dialeto não era exatamente uma boa maneira de começar o dia. Mas, para compensar, disse ao Harry que a Alemanha já fabricava motos sete anos depois de ser destruída.
A minha casa ficava a 1 km da ferraria, margeando o Arroio Forromeco. Bodoque no bolso de trás. Mas nunca acertei um passarinho. O que hoje me dá orgulho. Mas essa já é outra história.