Assim como não se banha no mesmo rio duas vezes, porque as águas mudaram e quem toma banho também mudou, nunca mais Porto Alegre terá uma casa como a Tia Dulce. Ou melhor, casa de sopas, em especial a de cebolas.
Talvez inspirada na famosa sopa de cebolas da Ceasa de São Paulo, que vinha servida com uma espécie de farofa de pão por cima e coroada por uma gema de ovo. Quem nunca provou sopa de cebolas não sabe o que está perdendo, não tem o ranço e o lacrimejar dela crua.
Não se chora, levanta-se após uma jornada exaustiva, tipo levantar defunto em velório.
A Tia Dulce ficava na avenida Independência, meia quadra depois da Santo Antônio à direita de quem sobe. Abriu na década de 1960 e ficou famosa por vários motivos.
Além da sopa, ficava aberta toda a madrugada e era um ponto frequentado pelas esfuziantes noites da Independê, como era chamada. Recebia o público das boates que hoje chamamos de danceterias depois do fecha.
O Butikim de Ruy Sommer, Vila Velha de Carlos Heitor Azevedo, Locomotive de Éldio Macedo e o Whisky Ago Go de Rui Dallapicola. Esta na esquina com a Garibaldi, mais os que ficavam órfãos da noite dos bares da região.
Com o passar dos anos, a Tia Dulce também era sinônimo de frequência da alta sociedade, e o cardápio ficou variado. Além da tia, cuidavam da casa uma irmã, um garçom e o marido que só cuidava dele, seu Cassel, que fora oficial do Exército americano na II Guerra Mundial.
Para provar, me mostrou uma pistola Colt 45 que levou de brinde do Tio Sam, quando deu baixa do Exército norte-americano. A tia era a xerife, gerente e atração da casa. Não levava ninguém de compadre.
Com tanta vizinhança e freguesia famosa, era inevitável que, de vez em quando, estourasse uma briga. Normalmente, por desacerto entre corações apaixonados, mas traídos no escurinho das boates.
Que eu lembre vi cadeiras voadoras pelo menos duas vezes, uma delas catapultada por um conhecido brigão, jornalista nas horas vagas, que assim descarregou sua fúria porque sua noiva estava se casando com um muy amigo naquela noite. Casualmente, eu estava lá. E, por sorte, nenhum dos objetos voadores identificados me achou.
A Tia Dulce sobreviveu aos anos 1970 até os 1980, mas sem o brilho e a freguesia de antes. Acho que ninguém mais pedia a sopa de cebola de levantar defunto, até porque muitos dos antigos frequentadores estavam mortos há pouco tempo.
Às vezes, ponho-me a pensar como a Porto Alegre já foi interessante. Característica que foi perdendo até se limitar ao que temos hoje.
Como um rio em que não tomamos banho duas vezes, a cidade nunca mais foi a mesma. E nem nós somos os mesmos. Coisas desse deus que os gregos chamavam de Cronos.