Texto de hoje é do marchand e amigo Renato Rosa
“Era alta madrugada, e o Alceu Collares pega o microfone e resolve declamar um poema e cantar uma dor de cotovelo do Lupicínio Rodrigues. Ele estava em baixa, era um ex-prefeito ainda meio longe de tornar-se o segundo governador negro do Rio Grande do Sul.
Éramos um pequeno grupo boêmio ainda resistindo na noite gélida da boate Papagaio’s. De repente, a Gilda resolve ir embora e eu a acompanho pegando o táxi cujo roteiro seria desde a Cristóvão Colombo, quase Santo Antônio, até o centro no Largo dos Medeiros/Praça da Alfândega/Rua da Praia onde ela morava no edifício do Clube do Comércio.
As ruas, naquela altura já sendo 5h30min, estavam completamente tomadas por uma cerração incessante, que exigia muito cuidado á direção do táxi. Entramos na rua General Câmara e descemos, Gilda e eu, no Largo dos Medeiros.
O táxi ficou me aguardando. Caminhamos na névoa sem vermos nada quando, na frente da entrada da galeria Di Primio Beck, ela me estanca e diz:
– Meu querido, estou bem, sei o caminho e daqui eu posso seguir sozinha. Estou em casa.
Nos despedimos e ela sumiu envolta na névoa que dominava a Praça da Alfândega. Foi a última vez que vi a Gilda Marinho (*).
* Gilda Marinho foi uma colunista social famosa nos anos 1950 até os anos 1970. Polêmica e culta, tinha amigos em todas as áreas.