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Memórias além-túmulo

Se as mesas do bar Urbanu’s fossem cobertas com pano, provavelmente a galinha Pasionaria não teria morrido de cirrose. Pelo menos foi esta a conclusão dos frequentadores do bar no bairro Auxiliadora que a conheceram. 

Em meados dos anos 1970, uma turma de pândegos viu uma galinha do dono do bar caminhando por entre as mesas. Um dos cativos da mesa teve a ideia de derramar cerveja, ergueu-a e insistiu que ela bebesse. Para surpresa geral, ela aceitou o convite e bebeu a loira no jeito típico que os galináceos bebem, de bicada en bicada.

 La Passionária ficou famosa, gente ia ao bar vê-la. Virou notícia de jornal e bebeu todas. Deu no que deu, apesar que ela também era viciada em quindim. Vai ver que foram eles que fizeram mal ao fígado da coitada.

Na roda, estavam os jornalistas Coi Lopes de Almeida e Renato D’arrigo, entre outros. Pasionaria morreu devido às más companhias, poderia ter dito sua mãe, se viva fosse e soubesse falar. É no que dá não saber beber com moderação.

 Não foi a única galinha a ser personagem da cidade. Nas imediações do Jockey Club, outro estabelecimento também frequentado por gente mais ou menos famosa, uma delas ciscava pelo pátio. Um advogado de nome Nelson cismou que galinha tinha o cérebro tão pequeno que poderia até ser hipnotizada.

Qual o quê, zombaram os amigos, isso é bem coisa de borracho. Bem, borrachos todos eram, menos a indefesa galinha sem nome.

O doutor Nelson se abaixou, pôs-se de cócoras e fixou o olhar penetrante nos olhos da provável paciente, que não estava nem aí para esse invulgar experimento científico. Se soubesse e se a penosa tivesse ego, colaboraria.

Em vez de olhar para um lado e para outro seguindo o dedo indicador do psicólogo amador, só meneava a cabeça, talvez querendo em troca uma ou duas espigas de milho debulhadas. E o doutor ali, apontando o dedo, olhando bem fundo nos olhos da pobre vítima, que estava longe de fechar os olhos se soubesse fechá-los.

 Depois de algumas cervejas e olhares divertidos para o hipnotizador prático-não licenciado, a turma cansou e deixou o doutor Nelson terminar o que havia começado, enquanto seguiam na tarefa de tentar zerar o estoque de cervejas do bar.

Estavam nesta difícil ação quando ouviram um baque. O doutor Nelson havia perdido para lei da gravidade e veio ao chão.

   Foi prontamente erguido e posto na cadeira, na qual foi reanimado com mais cerveja. A conclusão fatal do colegiado: a galinha é que havia hipnotizado o hipnotizador.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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