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Os encantos da Maria Fumaça

Eis um belo relato do montenegrino Ernesto Arno Lauer sobre as viagens de trem das décadas de 1940 e 1950, quando o Rio Grande do Sul tinha uma estatal ferrroviária, a Viação Férrea do RGS (VFRGS). No tempo de antigamente, as famílias viajavam  muito de trem, especialmente aos sábados e domingos.

O trem Caxias sempre chegava em Montenegro com atraso. O pessoal caminhava até a Estação Férrea, pela manhã, horário do comboio. Muitos vinham  pela Osvaldo Aranha; outros tantos, pela Santos Dumont. Por esta última, do Wolgemuth até a estação, o trajeto era  pelos trilhos. De carro de praça, só os abastados.

As pessoas trajavam a roupa domingueira, impecavelmente. Os homens com fatiota,  camisa branca e gravata. As fatiotas eram mandadas confeccionar nos diversos alfaiates locais. As camisas eram compradas no comércio local, ou confeccionadas na Camisaria Jung.  Os vestidos eram feitos pelas modistas e costureiras.

O importante era estar bem apresentado, para impressionar os parentes do interior, aos quais iria-se em visita. Pelo normal atrazo do trem Caxias, a primeira pergunta que se fazia  ao chegar à estação era: “Quanto tempo o Caxias está atrasado?”.

Primeira providência,  comprar os bilhetes, de primeira ou de segunda classe, conforme o poder aquisitivo de cada família. O bilhete era um pequeno ticket, feito em papelão (era bem grosso). Para sair do saguão e entrar na plataforma, os bilhetes tinham  que ser apresentados e furados (por uma furadeira-de-mão). Evidente que a gurizada sempre dava um jeito de alcançar a plataforma bem antes, mesmo sem bilhete.

O negócio era chegar o quanto antes na plataforma para brincar.  Na Estação vendiam revistas e os filhos enchiam a paciência dos pais para comprarem, principalmente o Pato Donald e o Mickey.  Alguns sentavam na escadaria da entrada, mas com todo o cuidado, para não atrapalharem as pessoas que por ali circulavam e para não sujar a roupa. Se isso acontecesse, a palmada era certa, ou um castigo.

Na plataforma circulavam vendedores de pastéis e sonhos; havia vendedor de balas e doces, que anunciava o seus produtos, gritando: ‘BALEIRO, BALAS”.  No verão vendiam picolés, que eram feitos em casa.

Havia uma técnica para saber se o trem já vinha chegando: era colocar o ouvido no trilho e ouvir o barulho, que se propagava ao longe. Assim, a gurizada logo ia para os trilhos, tentando escutar a aproximação do trem. O pessoal da Estação ficava brabo, xingava, mandava voltar para a plataforma. Os pais eram chamados, até a coisa normalizar.

Na plataforma as meninas iam para um lado e os meninos para outro. Elas brincavam de amarelinha, que naquele tempo se chamava de “sapata”, de esconder e de pegar. Claro que haviam outras brincadeiras, como “Brincar na floresta enquanto o seu Lobo não vem”, “Meia-meia-lua, um, dois, três”,  “Calçada é minha, não é do dono”, com ferrolho (céu, onde não podiam pegar) na parede.  Nos dias de chuva, as brincadeiras aconteciam debaixo da marquise. As brincadeiras eram light, como passar o anel, fita, adivinhação etc…

Os guris, além de escutar a aproximação do trem, brincavam de mocinho e bandido, de índio, super homem, de pegar, de esconder. Muitas vezes, uma bola era improvisada – com papel – e saia um jogo de gol-a-gol (chute) ou de atirar com a mão.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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