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Parece que foi ontem

Certo, não é pra tanto, porque completar 58 anos de jornalismo tem que ser visto pelas lentes de mais de meio século. Mas posso garantir que lembro perfeitamente do dia em que o jornalista Ademar Vargas de Freitas, colega da Faculdade de Jornalismo da UFRGS, encontrou-me na entrada do Centro Acadêmico Franklin Delano Roosevelt para dizer que havia uma vaga para repórter da madrugada na Zero Hora.

Só fui pensar no tamanho da empreitada depois de agarrar a chance com duas mãos, e tinha a ver com carga horária. Afinal, eu trabalhava na secretaria da gerência de um banco, o Província, no tempo em que os juros bancários eram 3,2% ao mês, sendo 0,2% de IOF. Já naquele tempo, o governo mordia seus cidadãos.

Duque de Caxias, 533, Alto da Bronze, segundo andar, apê 21. Bronze teria sido uma mulher que se postava na janela de um sobrado, de onde contava as últimas fofocas do bairro. Foi isso que me ensinaram na faculdade e eu gostava de pensar que, de onde eu morava, poderia ter ouvido a fofocalhada da tal mulher. Teria dado boas matérias.

E boas matérias é que não faltavam nas madrugadas de 1968, na cidade que nem tinha 40 mil habitantes, bondes barulhentos e duas sinaleiras entre a redação, na rua Sete de Setembro, e Ipanema. Os automóveis nacionais começaram a ser cada vez mais vendidos e, da janela da Bronze, quem sabe – eu pensava – se eu tivesse grana (e mesmo com dois empregos, ainda não era uma realidade palpável), eu não teria garagem para meu carro que, um dia, se Deus me ajudasse, teria um. Com canos retos e sem surdina, e direção de carro de corrida.

Se Deus realmente tivesse olhos para mim, mandaria o Banco da Província multiplicar meu salário por 10. Uma colega de faculdade, a Genoveva, contou-me, anos depois, que eu dizia: “se pelo menos eu ganhasse dois mil”, daria para brincar contra os 600 que ganhava.

Mas não era dinheiro pouco. Dava para comer melhor que a gororoba gosmenta do RU, podia almoçar no Matheus e jantar picadinho com farofa ou um filé alto com aspargos na manteiga no Stylo’s Bar, na Independência. E comprar umas roupinhas novas e discos. Dúzias deles. 

Pelo jeito, o Senhor não me ouviu, ou os diretores do banco eram pão-duros renitentes como Ebenezer Scrooge, do escritor Charles Dickens. Restava ganhar bem como jornalista. Entretanto, eu sabia que na profissão que escolhera “ganhar bem” era inexistente.

Mas era o que eu sabia fazer. Escrever dava uma liberdade de imaginação. Bancário, não. Entre slips, livro razão e duplicatas, a vida me parecia monótona como contar quantos paralelepípedos tinha na largura da rua do meu prédio na Duque.

 Sair da ZH às 7 horas, correr até a faculdade, ir à pé assistir, almoçar correndo, ir para o banco às 12h30 e dele sair às 18h45, comer um mata-fome e dormir três horas para pegar pesado antes da meia-noite. Bem, meu cálculo era que, em algum tempo, eu poderia pegar o horário dos meus sonhos – das 19h até meia-noite, para depois ir para a noite, se Deus quisesse. Às vezes, ele não queria.

Magro como espeto de churrasco que fez dieta, dormindo de pé, olheiras profundas. Mas pode acreditar numa coisa: eu era feliz pra caramba.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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