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O sequestro do bonde

 Todo mundo enxerga os antigos bondes de Porto Alegre como algo glamoroso e eficiente, mas isso aos olhos de hoje. Na época, era bom e era ruim. Barulhentos com suas rodas de ferro, para o fluxo do trânsito, eram um desastre, porque a entrada e saída dos passageiros pelas quatro portas obrigava todo mundo a parar. Menos mal que Porto Alegre tinha menos de 30 mil automóveis até 1968, quando o grosso das linhas foi desativado.

 Havia dois modelos. Um mais longo, onde viajava-se relativamente bem. Era melhor ficar de pé, porque os bancos eram de madeira e nada funcionais. Em linhas menos votadas, como Navegantes, a Carris utilizava o bonde gaiola. Mais curto, tinha só um par de rodas, o que o transformava em uma batedeira assim que o motorneiro imprimia um pouco mais de velocidade.

 Vocês não têm ideia do que era viajar no gaiola quando ele começava a chacoalhar longitudinalmente. Tinha que se segurar no encosto do banco da frente. Boa parte dos que viajavam de pé tiveram que desenvolver mecanismos motores para manter o equilíbrio. Alguns gostavam de viajar dependurados nas portas, de prontidão para escafeder-se quando chegava o cobrador. Eram chamados de pingentes e não raro um deles se estatelava no chão e entrava nas estatísticas.

 Certa vez, alguns pândegos sequestraram um bonde na frente da Lancheria Paris, que existe até hoje, na rua Riachuelo quase Borges de Medeiros.  O motorneiro, o cobrador e o fiscal estavam fazendo um lanche – eram chamados de tranviários – quando a turma se apossou dos controles. Para garantir a integridade física e evitar a cana – era no tempo do regime militar – botaram um general da reserva a bordo, devidamente abastecido com generosas doses de gim-tônica. Era noite alta, e a turma zanzou por diversos bairros da cidade até que, prudentemente, deram às vilas Diogo, expressão da época para fugir, debandar. O general, nascido lá pelas bandas do Alegrete, achou que era uma viagem comemorativa patrocinada pela Carris. E com serviço de bordo. A essa altura, a Carris inteira estava em polvorosa com o “sequestro”.

 Viajar nas portas em dias de frio e chuva era um suplício. Hoje, tudo parece bonito e mesmo gerações que usavam os chamados “elétricos” têm saudades deles. Eu digo o seguinte: não é que eu tenha saudade dos bondes, eu tenho é saudade do tempo em que eles eram parte da paisagem porto-alegrense.

Foto da internet sem identificação de autor.

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Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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