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O segredo do Mateus

 Um dos melhores lanches que se fazia na Porto Alegre de antanho era o sanduíche de pernil do Mateus, misto de restaurante, aderia e lancheria, que ficava defronte à Praça da Alfândega, quase ao lado do Clube do Comércio. Receita simples: pão d’água com recheio de lascas de pernil de porco e molho bem caseiro, nada daqueles que são segredo de família, cheio de complicações. Não mesmo, molho comum, o mesmo que molhava o cachorro-quente da casa.

 O pernil do Mateus era famoso. Para começar ficava aberto de madrugada, a rua era segura e tenho pena de vocês que precisam olhar para trás a cada dez metros de caminhada, mesmo de dia. Vocês não conheceram a felicidade, maioria infeliz. Voltando à vaca fria: a gente se perguntava como era possível que o sanduíche de pernil do Mateus pudesse ser tão bom e todos os que tentavam imitá-lo não conseguiam fazer coisa que prestasse.

 Depois que o Mateus fechou, durante anos – décadas até – experimentei esse lanche em um sem número de casas, eu e todos os amantes do Mateus dos anos 1960. Nunca passaram do razoável. No início dos anos 90, um amigo me ligou para dizer que abriria uma lancheria, que o maldito corretor de texto insiste que é lanchonete, e que esse era a especialidade da casa. Fui, comi, e não voltei. Seco como verão nordestino e molho metido a besta, com pão massa doce, desses de cachorro-quente de hoje, um atentado do EI.

 Quebrei a cabeça para descobrir qual seria o segredo do Mateus. Um dia, dissolvi as brumas que cercam a memória e fiz um replay mental, buscando cada passo desde chegar no balcão, fazer o pedido e receber o lanche. Veio um vento mais forte e a cena ficou clara, claríssima, então descobri qual era o segredo.

 O pernil era lascado na hora. Ficava sempre úmido. Qual a novidade? Perguntarão vocês. Vos digo: esta mesma frase foi dita a Colombo e ao seu ovo de pé.

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Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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