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O naufrágio do restaurante

Todos o conheciam no restaurante Dona Maria. Mas só de vista. Todos sabiam que ele era médico. Mas só de ouvir falar. Todos sabiam que ele já tinha passado dos 60 porque estava na cara.

E todos sabiam que ele ia jantar sempre com duas garotas muito bonitas e bem jovens porque dava inveja. E todos sabiam que ele era nordestino porque os garçons identificaram o sotaque.

Careca, acima do peso, aparência de quem foi e ainda era, quem sabe, um ninja dos lençóis. O trio sentava sempre na mesa do canto logo após a entrada.

Era uma sábia logística, sem dúvida. Quando se entra num ambiente público não se olha para os cantos escondidos logo após a entrada.

Elas só tinham olhos para o bom doutor. Seis mãos se acariciavam com pudicícia acima e debaixo da mesa, segundo o garçom Adão, o Longevo.

Nesta quadra da vida, as conquistas amorosas costumam sair da pessoa física para a jurídica – Nelson Rodrigues já dizia que o dinheiro compra até amor verdadeiro. O fauno vestia sempre um terno bem cortado, usava perfume caro e discreto, um reluzente Patek Philippe no pulso.

  Na outra ponta do restaurante, perto da caixa, sentava sempre o dono, seu Ernesto Moser. O restaurante foi severamente danificado por um incêndio por volta de 1973, mas tal como Fênix deu a volta por riba. Restaurado, surgiu um problema oposto: passou a enfrentar alagamentos a cada chuva mais forte, coisa de uns 20 centímetros de água, um horror.  

Quando isso acontecia, um fleumático Ernesto não saía da mesa, só pedia um engradado vazio de cerveja e nele botava os pés.

  Certa noite, veio um toró dos diabos. Minutos depois a casa quase boiava, a maioria dos clientes se mandou. E seu Ernesto e eu sentados sem dar pelota para o dilúvio, comendo salsicha bock e queijo Port Salut. Sempre que conversava, o austríaco Moser pegava um palito e batia nele com o paliteiro, à guisa de martelo.

  Foi então que ouvimos um barulho esquisito vindo do fundo, um chap-chap-chap de alguém caminhando com água pelos tornozelos, quase aquaplanando. Era o médico. Veio direto em cima do Moser e então falou com carregado sotaque nordestino.

     – Aí, seu Ernesto, quer dizer que depois de pegar fogo, a casa agora vai a pique?

Dito isso voltou para a sua mesa e para seu seu harém, fazendo chap-chap-chap de novo. Silêncio. Seu Ernesto parecia o imperturbável de sempre, mas só na superfície.

Seguiu batendo o palito com o paliteiro.

  Que só não ficou cravado na mesa de madeira porque quebrou antes. De outra feita, um incêndio queimou tudo que estava dentro do cofre da casa, menos um vale de um azarado jornalista da Folha da Tarde.

Mas essa já é outra história, uma das tantas que ornamentam a história de um velho restaurante, que hoje virou templo de consumo de produtos baratos.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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