Ontem falei dos faróis, em particular o de Tramandaí, que tanto me encantou nos anos 1970. Hoje quero falar do encantamento de pilotar um avião sozinho pela primeira vez.
No início dos anos 1960, eu tirava o brevê de Piloto Privado no Aeroclube de Montenegro. Foi no tempo da aviação heroica e os aviões de treinamento se limitavam a pandorgas motorizadas, como ironizavam os pilotos comerciais.
Também, pudera. O CAP 4 tinha um motorzinho de 60 cavalos e a velocidade de cruzeiro era de apenas 125 km/hora. Mesmo assim, eu adorava acordar de madrugada, pegar um ônibus até o aeroclube, revisar meticulosamente o avião e o motor e colocar gasolina.
Neste dia em especial eu e o instrutor Airton decolamos e ele ordenou que fizesse um turno de pista, uma volta da pista a mil pés (300 metros em números redondos), e pousasse em seguida. Assim fiz, pouso impecável de três pontos, duas rodas e a bequilha de cauda tocando o solo ao mesmo tempo.
Quando me preparava para taxiar para o hangar, ele abriu a porta e falou:
– Agora é contigo. Vais pilotar sozinho pela primeira vez.
Nem deu tempo de ficar nervoso. Fiz o check list de decolagem no capricho, taxiei até a cabeceira, uma olhada para os lados e frente, empurrei o manete de aceleração até o batente e em pouco tempo as rodas deixaram o solo.
Já no ar, reduzi a potência para 2.150 RPM. Eu era o dono do ar. Como não havia turbulência nem ventos fortes, relaxei e curti a paisagem vista do alto. Que sensação maravilhosa!