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O defunto que se mudou

Os habitantes da famosa Mesa 1 do Bar e Rotisserie Pelotense, na rua Riachuelo entre Borges de Medeiros e Praça da Matriz, ficaram desolados quando souberam que um antigo frequentador da roda havia partido para As Grandes Destilarias. Ou seja, o céu dos que admiravam garrafas de uísque.

A Pelotense,Como era chamada nos anos 1970, era uma  casa no capricho. Mesas de mármore sustentadas por pés de ferro trabalhados, ventiladores de teto no alto pé direito, era famosa desde os anos 1960.

A notícia chegou à roda por volta do meio-dia de um sábado, portanto tinham habeas corpus para fazer horas extras. Depois de incontáveis brindes em memória do falecido, que não viam há anos, vertidos litros de lágrimas e sacos cheios de soluços, concordaram suspender as libações para ir ao velório.

De imediato, precisavam saber da família o cemitério e a capela. O Pedruva cumpriu esse doloroso dever, então  partiram para o velório na capela do cemitério João XXIII.  

Em lá chegando, foram direto ao caixão. O amigo estava irreconhecível pela longa doença e desgaste dos anos. Choraram compungidos, cumprimentaram o que parecia ser a esposa, e ficaram de pé no recinto, fungando e lutando contra a lei da gravidade.

Depois de um certo tempo, um deles foi novamente ao caixão, fitou o  rosto do finado por um bom tempo meneando a cabeça como a dizer “como nos aprontaste essa?”. Em seguida, falou em voz baixa com um dos presentes. Cochicho extinto, conduziu a tropa para fora da capela.

Não era o amigão que estava sendo velado. Uma rápida consulta por telefone com familiares do verdadeiro defunto mostrou que não era a capela nem mesmo o cemitério, o velório era no Cemitério São Miguel e Almas.

 Foi então que souberam que o Pedruva era muito mais surdo que parecia.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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