Meu big bang aconteceu em algum dia de agosto de 1968, quando o jornalista Ademar Vargas de Feitas me abordou, na saída do Centro Acadêmico Franklin Delano Roosevelt, da Faculdade de Filosofia da UFRGS, que – na época – englobava a Faculdade de Jornalismo.
– Tem uma vaga para repórter da madrugada na Zero Hora. É barra pesada, reportagem policial. Topas?
O Ademar era copydesk, função que desapareceu no jornalismo atual, o cara que reescreve as matérias para corrigir erros e padronizar os textos. Até hoje não sei se o agradeço ou não pela indicação.
O fato é que aceitei e eis-me aqui, 58 anos depois, firme como palanque em banhado. Fiquei ano e meio na função.
E, se vale a opinião de editores e colegas, fui um bom repórter. Depois passei por outros jornais e outras editorias.
Ademar tinha razão. As madrugadas da Porto Alefre daqueles anos eram barra pesada. É uma cidade sem lei e sem alma, pensamento recorrente naqueles dias.
Mal sabia eu que, perto de hoje, a capital gaúcha tinha lei e, sobretudo, alma. A alma perdeu-se no labirinto de cimento da selva de pedra.
Eu fui feliz em uma cidade com menos de apenas 40 mil automóveis, com dias e noites pulsantes. Cidade que queria ser gente grande, mas ainda tinha jeito de vila.