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Desafio na corda

 Descobri mais uma profissão que exerci quando adolescente. Amigo do tempo do ginásio São João Batista, de Montenegro, postou uma foto da cidade na enchente de 1941. Um dos meus amigos e colega de classe, Cilo Hummes, comentou que ele fora sineiro da igreja que aparece na foto. Sineiro! Quantas profissões desapareceram, e sineiro foi uma delas. O bimbalhar dos sinos hoje é eletrônico ou comandando por algum algoritmo. Pelo que sei, em outros países é com muito orgulho que os sineiros ainda fazem essa tarefa.

 Pois o seu Marcel Proust é realmente o tal. Tinha esquecido que também foi sineiro, mas como free lancer não-pago. O que acordou esse fragmento de memória não foi algum cheiro, mas o comentário de um amigo daqueles tempos. Ressurgido das brumas do tempo, vi-me pendurado nas cordas da antiga igreja matriz. Eram três sinos, um pequeno, um médio e um maior, usado para marcar a primeira missa e a Hora da Ave Maria, às 18h.

 Quando o Ari, o sacristão, pedia para substituí-lo, não precisa falar duas vezes. Demorava até o gongo bater na lateral do sino grandalhão, mas depois que ele embalava tinha que se esperar para que a lei da gravidade fizesse efeito. Bastava uma leve puxada de corda para acionar os outros dois.

 A brincadeira era se pendurar na corda do sino grande, que subia e descia conforme era acionado. Você voava em cima daquele poço abaixo, subindo, descendo, subindo, descendo, até que, antes dele parar, buscava a segurança do estrado lateral.

 Mais uma para meu livro de memórias. Já fui sineiro, é mole? Não de carteira assinado, mas eu tinha potencial para ser um grande profissional na arte de badalar. Posso assegurar que se ouvia a quilômetros de distância.

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Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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