Quem passa dos 70 anos, tem mania de dizer “no meu tempo”, com texto oculto salientando que era melhor que o tempo das lâmpadas Aladim. Pode até ser, posto que ele não muda, e o futuro do presente é incerto e não sabido.
Nos anos 1950, o medo era de uma guerra nuclear entre duas superpotências e seus mísseis balísticos, com dúzias de ogivas nucleares capazes de deixar o mundo radioativo por dezenas de milhares de anos, vezes 100. Hoje, drones de fundo de quintal esculhambam com planos de generais e almirantes.
Neste sentido, sim, já que o pior não aconteceu, então o passado foi melhor. Logo, dá para dizer que as lembranças têm o cheiro de saudade e o gosto de querer voltar no tempo. Sou do tempo da lâmpada de Aladim com camisa incandescente de pavio mergulhado em querosene, porque energia elétrica no interior dos interiores era raridade.
Nossas mães cozinhavam usando banha de porco. Já o fogão à lenha tinha três serventias: para cozinhar, para aquecer parte da casa no inverno e para usar as brasas como combustível do ferro de passar roupa.
Posso sentir até hoje o cheiro da roupa e o chiar da água aspergida com a mão no tecido, enquanto o ferro cumpria destino de vaivém. Sinto o gosto da massa caseira e da sobremesa de gelatina de framboesa com creme de leite com baunilha, um dos cinco cheiros mais lembrados do mundo.
Que alegria ao comer a primeira torta de bolacha, com aviso materno de só poder repetir a dose uma vez! Nos dias de semana, xarope de groselha com água da torneira e um copo de vinho de garrafão para o pai. Nos domingos, Malzbier para a mãe e ainda gasosa feita com gengibre.
Coca-Cola e Soda Laranja só em dia de grande festa, como aniversário. Também dia que valia por um ano, de tanto par de de meia, sabonete e talco que se ganhava de presente dos amiguinhos e primos. Saudades da caixa de bombons que Frau Fillmann, uma amiga da mãe, dava – para nós dois, bem entendido. Às vezes pintava uma lata chata e larga de goiabada Cica, boa mas nem de longe gostosa como a caseira, feita pela tia Ermelina Selbach.
Já grandote, experimentei a forte mostarda Touro, com um slogan meio cretino: ” forte como um touro”. Foi a descoberta do sanduíche aberto já com 15 anos, olhar desconfiado para coxas de rã à milanesa do Recreio Avenida, na então avenida Eduardo, hoje Franklin Roosevelt, no Quarto Distrito. Ora, comer sapo, eu hein? Era tempo de passar uns dias na casa do tio Edmundo, armazém “de secos & molhados” e logo abaixo em letras enormes
“Armazém Edmundo, o terror da zona”.
Saído da colônia e depois da cidade pequena, dias de férias na cidade grande, um bairro com decoração de Natal nas ruas e um serviço de alto-falantes, quando ouvi pela primeira vez a música “Eu pensei que todo mundo/Fosse filho de Papai Noel”.
Já naquela época eu desconfiava que aquilo era pura verdade: nem todo mundo era filho de Papai Noel. Mas pelo menos eu era um.