Certa vez, estava eu engraxando os sapatos e ouvindo, sem querer querendo, o desabafo do meu engraxate com seu colega na cadeira vizinha. Eram vizinhos de bairro, em vila no fim do mundo, nas quebradas do mundaréu como dizia o ator e teatrólogo Plínio Marcos, forjado na marra e na persistência que o levou a produzir peças e a inesquecível novela Beto Rockefeller, nos anos 1960, quando a TV Tupi era a rainha da telinha.
O papo era amargo, o pai tinha falecido e, depois do enterro, os filhos conversavam sobre como repartir o miserável dinheirinho do não menos miserável casebre, tosco e pobretão como eles. Pois nesta hora amarga de repartir o que não pagaria nem um jantar com vinho estrangeiro em um restaurante classe A, assomou à porta um sujeito que nunca tinham visto antes com um papel engordurado na mão.
Era uma certidão provando que ele também era filho fora do casamento do finado. Não apareceu quando o pai padecia horrores em um inferno de dor sem volta.
– Vim aqui para pegar minha parte na herança do papai.
Nossas horas é papai, disse o vizinho de profissão. Verdade, concordou o meu engraxate, passando o pano manchado por graxa de diversas cores no meu sapato, com aquele estalo que eles fazem questão de ser ouvido a metros de distância.
Havia inconformismo e raiva naquele gesto. Eu fiquei ouvindo a conversa sobre a miséria humana.
– Doutor, urubu não avoa só sobre cadáver de rico, não. Pobre também tem disso – falou o filho.
Olhou-me como se eu fosse um ser alienígena longe desse insensato mundo. Não poderia estar mais enganado.
Poderia ter dito que, no meu mundo, acontecem as mesmas misérias e injustiças construídas por pessoas sem lei e sem alma. Mas me calei.
Fez-se um silêncio quebrado segundos depois pelo filho do falecido alvejado pelo urubu da cobiça. Como num passe de mágica, os dois mudaram de assunto e, com maestria, contornaram a dor de um e a solidariedade do outro para contar uma fofoca de amigo comum.
Pouco depois, caíram numa risada sincera que sepultou a amargura. Ato contínuo, fizeram planos para um churrasco com as patroas no fim de semana adiante. Se Deus quiser ganho na loteria, disse um deles.
Foi nessa hora que lembrei do texto de teatro “Brasileiro, Profissão: Esperança”, escrito por Paulo Pontes em 1970. E também cheguei à conclusão que os dois engraxates morando no fim do mundo, em casebres que podiam ser toscos, mas que deixavam entrar a luz de dias melhores, estavam falando não só deles. Mas de mim, de você, de todos nós com nossas tragédias e nossas esperanças por dias melhores.
E bota esperança nisso.