Nos anos áureos dos bar-chopes de Porto Alegre, anos 1960, cada um tinha seus fregueses cativos e também histórias envolvendo tipos hilários. No início da segunda metade da década, houve alguns assaltos, poucos é verdade, mas que assustavam a clientela.
A Brigada Militar começou a fazer blitzes e dava incertas nos bares, pedindo documentos da freguesia. Um Delegado de Polícia era visto sempre com uma bojuda Bíblia embaixo do braço, companheira de libações noite adentro.
Numa dessas incertas, um PM ficou curioso e abriu o livro sagrado. No miolo caprichosamente recortado estava uma pistola Browning. O policial explicou que a última coisa que um assaltante levaria seria a Bíblia.
Em outro bar, o La Roca, na avenida 24 de outubro em frente ao hoje Parcão, um advogado de conversa leve e bebedeira pesada garantia que era faixa preta em jiu-jitsu, que não levaria ninguém de compadre e se preciso fosse levaria assaltantes para o HPS. As semanas foram se passando e nada de assaltos. Sem saber o que fazer com sua declarada arte marcial, o advogado achou que deveria fazer uma prova de vida da capacidade, e arrostou outros fregueses que tomavam tranquilamente seu chopinho.
Acontece que se deu mal, porque essa turma também não era bolinho. E, entre empurrões e safanões, deixaram o advogado a ver estrelas. Mais por safanões que por surra propriamente dita. Irritado, o causídico enfiou o dedo na cara de todos os presentes com a promessa que mexeram com o cara errado.
Foi para casa, vestiu o quimono, botou a faixa preta que não tinha certidão de nascimento e voltou ao bar. Aos berros, se postou no meio da avenida e botou as mãos em concha.
– Vem um por um ou todo mundo junto!
Veio todo mundo junto, mas nem precisava, deram uma camaçada de pau no faixa preta, que, por sinal, não era faixa preta coisa nenhuma. Ao que me lembre, não aprendeu a lição, porque quando estava sóbria era uma moça e quando bebia era um chatonildo de primeira.
Melhor sorte teve outro Delegado de Polícia, conhecido boêmio que frequentava o Box 21 no Hortomercado da Quintino. Quer dizer, melhor sorte até por aí, porque era delegado administrativo e como nunca havia prendido nenhum larápio passou a ser conhecido como Delegado Prisão de Ventre.
Churrasco na praia todo mundo faz, mas não sem sal, certo? Dois amigos conheceram duas percantas e, no fim da noite, convidaram as moças para um churrasco em Tramandaí. Passaram num açougue, compraram espetos, carvão e carne e se enfiaram no meio das dunas.
Fogo aceso, espetaram a carne e, então, deram-se conta que haviam esquecido o sal. Nem por isso ficaram chateados.
Cada um entrou com dois espetos no mar. Imaginem a cena, domingo de manhã, praia lotada, dois marmanjos correndo por entre os guarda-sóis levando espetos que mergulhavam a cada onda que arrebentava. Depois de vários batismos de sal marinho, voltaram para o alegre convívio das moças famintas.
Também houve um duelo como nos filmes de faroeste no Stylo Bar, na esquina da avenida Independência com a rua Garibaldi, mas essa já é outra história.