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A noite dos desesperados e outras histórias 

 Meus primeiros meses como repórter da madrugada, na segunda metade de 1968, cobrindo essencialmente a área policial, foram um aprendizado na marra. Não havia uma “escola de repórteres”, faculdade nenhuma ensina a ser um.

Reluto um pouco em dizer isso. Mas repórter é vocação, é um dom. Pode ser burilado e desenvolvido, mas você é ou não é.

Jornalista qualquer um pode ser, repórter o furo é mais embaixo. Como sempre digo quando alguém pergunta qual a maior qualidade de um jornalista: a curiosidade é nosso motor.

 Eu era curioso à beça. O que me faltava em experiência, compensava com teimosia.

O regime militar tornava as coisas mais difíceis. Entretanto, devo dizer que eram relativamente poucos os assuntos proibidos. Para cobrir a área policial, não havia empecilhos.

Fazer a ronda das 13 Delegacias de Polícia da época, ligar para o Plantão e especializadas como Furtos e Roubos,  Trânsito, HPS e Bombeiros. O macete era descobrir, pelo tom de voz do policial, quando ele queria esconder alguma informação. 

Havia uma certa má vontade com jornalistas abelhudos. Citar o nome do policial na matéria era um bom abre-alas. A vaidade, essa velha senhora, manda no mundo. Sabendo usar, não vai faltar.

 Dormir alguns minutos enrolado em papel jornal com roupa por cima era a melhor coisa para aquecer alguém. A tecnologia foi ensinada por um papeleiro chamado Sim Senhor, que ficava na frente da redação da Zero Hora – na época, na rua Sete de Setembro. 

Não era fácil trabalhar no jornal naquela época, quando o dono ainda era o jornalista Ary de Carvalho. Maurício e Jayme Sirotsky compraram a ZH em novembro de 1969, mas de fato assumiram em março de 1970. Todos os elogios eram para a Caldas Júnior de Breno Caldas, na época. 

Incensado, elogiado, todo mundo fazia rapapés quando falavam seu nome. A Zero, ao contrário, era antipatizada pela Polícia Civil, Brigada Militar e pelos milicos, é mole? Éramos o patinho feio – feio e manco.

Faltava dinheiro, e a gente se virava nos 30. Mas acreditem, dentro dos parcos recursos disponíveis, era um bom jornal. Enfrentar a antipatia motivava os repórteres.   

Na política, a ZH era muito boa, sob comando de Carlos Fehlberg. Ele sim, tinha que medir bem o que escrevia. No entanto, como falei, era um trapezista sem rede de proteção. Não bailar na curva era o desafio.

Nas madrugadas dos mortos e dos muito vivos, eu era rei. Encarar bandidos barra pesada, sustentar o olhar duro e empedernido de policiais antipáticos, fuçar em botecos pé-sujo na Voluntários da Pátria à procura de informação sonegada pelas polícias, essas coisas assim tão banais quanto cobrir algum evento social na falta de repórter especializado.

Eu amava lugares frequentados por colegas. Era um mundo de perdedores e poucos sobreviventes. No Bar Leão na Andradas, quase  esquina General Portinho, conheci um poeta fascinante, Moacyr Ribeiro.  

 – Hoje amanheci com uma vontade louca de brigar com Deus – disse, certa madrugada. E arrematou:

 – Vocês não entendem nada de ternura humana…

Discordei, mas sem dizer isso a ele. O que descobri nesse mundo de almas perdidas e, não raro desperdiçadas, foi que humanidade, a ternura humana do poeta Moacyr Ribeiro, era o que mais tinha na noite dos desesperados. Bastava descobri-la, cavando abaixo da superfície. Mas também, tudo depende de como você começa o dia.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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