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A noite das inquietações flutuantes

Durante o almoço dos jornalistas veteranos, perguntaram-me como foi o meu ingresso na profissão. Pois ele se deu em outubro de 1968, como repórter da madrugada de Zero Hora, ainda sob comando do jornalista carioca Ary de Carvalho.

A redação ficava na Sete de Setembro, hoje Garagem Rex, e as oficinas na rua Luiz Afonso, Cidade Baixa. Eu trabalhava como um cão e dormia três horas por dia no máximo.

No entanto, eu era feliz. Embora a quietude momentânea da jornada desse lugar a inquietações flutuantes. Salário? Baixo. Mas somados os salários me permitiam comprar até LPs de música boa.

A jornada começava pouco antes da meia-noite e terminava às 7h da manhã. De lá ia para a Faculdade de Jornalismo de onde ia, ao meio-dia, para o Banco da Província, jornada que terminava às 18h45min – na época os bancos não abriam de manhã.

As madrugadas eram violentas na área policial. Mas nada comparadas com as de hoje.

O que dificultava é que havia poucos telefones públicos e nem sempre se era bem recebido nas delegacias. Como a bandidagem odiava a ZH, fui alvo de uma bomba molotov quando a viatura parou num café (lancheria) e um tiro quando chegava na redação.

O alvo era o jornal, mas hoje fico na duvida. Muita coincidência. A marca da bala de 38 ficou anos nas pastilhas do prédio.

Nada de choramingar ou pedidos de proteção policial. Simplesmente fazia parte. Levar uma cacetada de PMs também fazia parte quando se cobria brigas na saída de carnavais nos clubes sociais.

Lembro como se fosse hoje o cheiro do PF servido nas oficinas. O mais saboroso que comi na minha vida. E nunca mais comi croquete igual, tudo produzido por um fogão de duas bocas e um cozinheiro competente.

Claro que tenho um milhão de histórias para contar. Uma delas foi quando estava na redação em dezembro, mês do AI 5. Preparando-se para o périplo de delegacias.

Alguém ligou denunciando que uma viatura discreta da PM2 (serviço secreto da Brigada Militar) rondava um colégio de bairro em que estudantes preparavam uma passeata.

– E como vocês sabem que era da PM2?

– Fácil. Era um Corcel novinho em folha, uma antena de dois metros de altura tipo as usadas em tanques, e com quatro passageiros todos com cabelo cortado à escovinha.

Não precisava ser Sherloque para deduzir. 

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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