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A liturgia do Kerb

Dia 31 comemora-se o Dia da Cerveja, embora com várias dissidências. Hoje o mercado está saturado até de rótulos estrangeiros, que eram muito caras. Até meados dos anos 1990, Brahma e Antártica disputavam o mercado. Mas aqui as marcas Polar (Estrela), Polka (Feliz), Serramalte (Getúlio Vargas), Pérola (Caxias do Sul) e, em menor escala, a Gazapina (Livramento). Chope era Brahma. 

   Nos kerbs, dia do padroeiro da cidade nas colônias alemãs, as famílias recebiam a visita de parentes de todas as regiões. O barril era colocado em um buraco feito no solo cercado de gelo e serragem, que servia de isolante térmico.

Isso no domingo, quando também se iniciavam os três dias de baile. Nunca aos sábados, porque o temido padre vigário achava que, se fosse neste dia, os paroquianos encheriam a cara e faltariam à missa dominical. 

    Alemães traziam o gasto com dinheiro na chincha, menos nos kerbs. Aí o diabo tomava conta. Dificilmente havia chope nos salões de baile, só cervejas.

Para mostrar que podiam abrir a guaiaca até a costura, deixavam as garrafas vazias nas mesas. Às vezes, o pau rolava. 

    Para dançar era preciso pagar uma espécie de converter artístico, uma fitinha colocada na lapela pelo fiscal da casa.  As bandinhas tocavam a mesma música (marca) duas vezes repetidas. As mais famosas no Vale do Caí eram a Flor da Serra, Tricolor entre outras. Eram chamadas de JAZZ BANDA MUSIKANDEN. 

A pronúncia era CHAZ PANDA. Tudo a ver com a formação das grandes orquestras de jazz daqueles tempos, com percussão, metais, contrabaixo. Mais para o final do baile bebia-se café forte, pão ou cuca com linguiça fervida. 

    Eram dias em que os colonos se esbaldavam. Muitos vinham das picadas, às vezes, quilômetros longe do salão em caminhos difíceis. As mulheres levavam sapatos de baile na mão e calçavam tamancos para não estragá-los, que eram deixados debaixo da mesa até a dura volta. Casamentos começavam no baile, embora a aproximação visual era feita nas missas.

    Também teve o caso do primeiro dançarino de rock em baile de kerb. Mas essa já é outra história.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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