O mundo dos sem-teto é um prato cheio para quem estuda o comportamento social. Engrossados com as vítimas da pandemia, a composição por gênero chama atenção: a maioria é de homens. Ou seja, as mulheres são relativamente poucas na comparação. Para um bom observador, salta aos olhos a diferença entre os novatos e os veteranos.
A lei da sobrevivência II
Os veteranos mostram mais segurança, os recém-chegados ficam encabulados. Quando recebem algum dinheiro, não olham para os olhos dos doadores, como que envergonhados pela triste situação.

A maioria pede dinheiro. Já os mais experientes aceitam alimentos. Geralmente, estes ocupam os lugares mais protegidos debaixo das marquises dos prédios. Alguns escolhem a rua por opção.
A lei da sobrevivência III
Veteranos costumam carregar panos e utensílios que acham no lixo à guisa de “patrimônio”, uma reação normal para quem perdeu tudo. São acumuladores que se afeiçoam aos trapos que os acompanham, testemunhas mudas do doloroso calvário.
Veteranos também bebem, geralmente cachaça misturada com refri. Ah, não deveriam? Ponham-se no lugar deles, tragédias ambulantes conservadas no vinagre do tormento.
Faltou algo, doutor
Um passante adotou um grupo de quatro sem-teto. O líder, 45 ou 50 anos, ficava sentado na mureta salvadora. Educado, cumprimenta e agradece sempre quem dá e quem não dá dinheiro.

Pois o aspirante a samaritano dava dinheiro para o grupo, até que teve uma ideia luminosa. Por que não dar sardinhas em lata, proteína com Ômega 3?
Suco com sardinha
Ele então foi ao supermercado mais próximo e comprou uma dúzia de latas, com ou sem azeite, no vinagre ou no tomate. Nāo precisa de geladeira e dura anos fechada. O rosto do líder mostrou um sorriso esmaecido.
– Mas báh! Com massa ou pão…. doutor, dá um troco para comprar um suco?

Com razão. No seco, é brabo.
Como dizem os franceses, bons costumes e muito dinheiro farão seu filho cavaleiro.
Pensamento do Dias