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A cidade que fede

Caminhei do supermercado Zaffari da Riachuelo até o Mercado Público de Porto Alegre sem erguer os olhos. Fiquei deprimido com o que vi – e cheirei.

Sujeira, garrafas pet e latas, restos de comida espalhados, cheiro de maconha a cada 50 metros, cheiro de urina nos cantos dos prédios, fedor de fezes humanas com manchas recentes, lixo espalhando um horror. Por toda parte se observa como o porto-alegrense ficou sujinho.

Foto: João Mattos, Container que impediria o acesso de pessoas ao lixo não atinge objetivo

Não era assim no passado. Ainda mais na área central, hoje cheia de acampamentos de sem-teto para usar uma palavra, desolação. 

Que contraste com a Porto Alegre dos anos 1960, quando cheguei aqui. Tudo limpo, poucos mendigos e maior pares folclóricos, personagens da cidade.

O povo não jogava restos de comida no chão. Como não existiam garrafas pet nem latinhas de alumínio, o trabalho dos garis era facilitado. Mas é do comportamento das pessoas que quero falar.

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A maior aglomeração era no terminal dos bondes na rua José Montaury. Você não tem ideia da quantidade. Como hoje, as bancas vendiam lanches, caldo de cana, com um pouco de limão – para tirar o excesso de açúcar.

Era um caos organizado nas horas do rush. Nesses momentos, havia mais passageiros que bondes, e como não havia portas neles o povo se pendurava perigosamente nelas.

Não lembro de ter visto tanta obesidade esparramada dos assentos. Naqueles tempos, ninguém usava mochilas que, penduradas nas costas, tiram lugar de outros passageiros, sem falar que um gesto brusco é lá vem uma “mochilada” bem na cara se quem está sentado.

Quanto à sujeira, creio que foi na época que surgiu a expressão “pobre mas limpinho”. E eram mesmo.

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Comia-se de maneira civilizada nos balcões das bancas e poucas lancherias. Claro que comparo aquela época com a de hoje. Então não que fosse tudo perfeito. O mais notável era que havia mais respeito, e os jovens davam lugar para os mais velhos, como regra.

Por fim, mas não que seja o final, não havia cheiro de cocô e urina como hoje. Não nesta proporção. 

Como dormir tranquilo

É muita pretensão, não é mesmo? Hoje só um pequeno grupo de pessoas pode se dar a este luxo, talvez os ricos (não os muito ricos) e os que não têm mais nada a perder, o que chamamos com o antigo provérbio “o que não tem remédio, remediado está”.

Os muito ricos sempre temem algum desastre que os deixe pobres. Claro que  já um grande número de vigaristas e criminosos que não está nem aí para os reclamos da pelo simples fato de que eles não a tem.

Observem as imagens em que a polícia prende alguns destes criminosos. Eles parecem arrependidos ou com cara de tristeza não porque estão arrependidos. Mas por terem sido pagos. Nem aí para as vítimas 

https://cnabrasil.org.br/senar

O mais recente medo de não poder dormir tranquilo é o selfie. Sim, ele mesmo. Os fraudadores do INSS confessaram que escolhiam suas vítimas ou laranjas com base nos selfies postados nas redes sociais. Então aqui vai uma sugestão, quem não é visto nas redes sociais não é lembrado. 

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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