Até os anos 1960, os pratos mais requintados nasciam na Capital e depois migravam para o interior. Como alguns levavam ingredientes mais caros ou pouco encontrados, nem sempre essa migração era possível.
O campeão em produtos importados era o Armazém Rio-Grandense, ao lado da Lojas Renner. O slogan já dizia tudo: “Se não encontrar no Armazém Rio-Grandense, não precisa mais procurar”.
Slogans, jingles e assinaturas musicais eram importantes na época, mais que hoje. Um dos mais famosos era de um xarope para a tosse, “Tosse, bronquite e rouquidão, tome xarope São João”. A mania de inverter os finais o transformou em “Tosse, broncão e roquidite, tome xarão São Jope”.
O peru à Califórnia, com frutas, virou moda no início dos anos 1960. Foi também época de beber vinho rosé Georges Aubert. Tintos razoáveis começaram a tomar corpo anos mais tarde, como o Santa Úrsula. Atribui-se a Oswaldo Aranha a frase que diz que vinho gaúcho dava azia até em copo de bicarbonato.
O trivial estrogonofe era considerado prato de luxo. Virou moda quando passou o filme “Miguel Strogoff”, um russo. Aliás, teria sido ele o pai dessa criança.
Era caro, e a vingança do povão era dizer que estrogonofe era um picadinho metido a besta. Também fricassé de galinha era comida de luxo.
Antes do frango ganhar escala e ter preço acessível, dizia-se que, pobre quando come galinha, um dos dois está doente – alusão à famigerada canja de hospital. Se não se morre da doença, morre-se de fraqueza.
O galeto, filho da passarinhada dos gringos, tomou conta dos gaúchos no início da década de 1960. Não me peça para dar o nome da pioneira.
Isso porque, certa feita, caí na asneira de dizer quem foi. Quase fui linchado. Hoje, para não ficar na ponta de uma corda, digo que foi combustão espontânea. Certas opiniões não convêm dizer nesta terra de linchamentos.
Preciso salientar que galeto era galeto mesmo. Não frango, servido como hoje, tanto que, nas galeterias, o prato era acompanhado de “al primo canto”.
Quando os gringos liquidaram com os passarinhos, o remédio foi apelar para pintinhos crescidos. Por isso é certo que a primeira galeteria foi obra de alguém com sobrenome italiano.
Camarão sempre foi caro nestas plagas, só não sei se tão caro como hoje. Por aqui temos muito a variedade “onde estás que não te vejo”, com a desculpa que, quanto menor o crustáceo, mais gosto tinha. Conversa pra ruminante dormir.
A onda da moda, hoje, é purê de mandioquinha e creme de moranga. Em casas mais prendadas, camarão na moranga. Também só encontrado antes do camarão chegar à idade adulta. Menor púbere, quase sempre.
Não aguento mais comer purê de mandioquinha e tomar creme de moranga. Desconfio que há uma supersafra. A prima dela, a abóbora, deve ter sido toda consumida no Halloween daqui ou exportada para os Estados Unidos.
Por último, vem essa moda de botar flor na comida. Não sou abelha para comer flor. Aliás, o Sindicato das Abelhas deveria processar os humanos por roubar suas minas de matéria-prima, além de roubar seus depósitos de mel.