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Um cabide, uma espingarda

Um cabide virava espingarda um cabide pequeno de atarrachar era um revólver, caminhão era feito (com imaginação, sempre) com  três latas cheias de areia e puxadas por uma cordinha presa no meio das latas – não atolava nunca -, e um cinamomo com galhos em V era a moradia de Tarzan. Pena que nunca encontrei uma Jane para brincar juntos. 

Quando meu pai visitou meus avôs na Alemanha, em 1952, trouxe-me um trator feito de lata. Brinquei até enjoar, fiquei deslumbrado.

Outro presente comprado na escala que o navio fez em Manaus chamava-se Contas e Lendas Amazônicas, com histórias do Caipora, que caminhava com os pés virados para trás, e a Uiara, deusa mortal que aparecia nas noites de Lua cheia no meio dos rios e seu canto atraía pobres mortais, que ela levava para o fundo. 

Fiquei tão excitado com essa lenda afogadora que uma noite fui para o Arroio Forromeco, em São Vendelino, para correr o risco. Sem acordar meus pais e irmãos, caminhei até o arroio distante meio quilômetro por uma picada no mato.

Comecei a ouvir vozes, vi vultos nos arbustos iluminados pelo luar, e me dei conta que não valia a pena morrer afogado aos nove anos.     

https://www.brde.com.br/

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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