Há muitos anos, um executivo teve que se deslocar de Porto Alegre para a filial Novo Hamburgo da sua empresa. Era uma sexta-feira muito quente, não iria voltar para o escritório, então dispensou paletó, gravata e carro. Vestiu uma calça Lee, o jeans da época, uma espécie de tênis pobre chamado Maria Mole, e uma camisa sem bolso tirada do baú da juventude. Passava do meio dia quando pegou o ônibus direto para a cidade onde havia tirado o ensino médio, Curso Científico na época.
Como seria viagem vapt-vupt, botou no bolso só a identidade e algum dinheiro para táxi e passagem. Da rodoviária foi de táxi à filial, fez o que tinha que fazer e voltou de táxi para o centro da cidade. Mais tarde se lembrou que algo o incomodava, algo não estava bem certo. Antes de voltar, resolveu tomar uns chopes numa mesinha na rua do bar. Quando quis pagar a despesa entrou em pânico. O último dinheiro foi para pagar o táxi. E agora?
Tentou manter a calma. Como tinha feito muitas amizades, quem sabe alguém passaria em frente. Deu sorte. Um colega de colégio parou à sua frente. O abordou com legítima alegria, no que foi correspondido, trocaram lembranças dos velhos tempos e coisa e tal. Lá pelas tantas contou a história de estar sem dinheiro. Poderia a amizade pagar a conta? O outro entristeceu o olhar.
– Meu pobre amigo, me deixaste muito triste. Para uns a vida tem erro, vejo que para ti ela deu errado. Tirou uma nota que seria de R$ 100 reais, colocou-a discretamente na mão do ex-colega. Estupefato, o executivo quis corrigir o engano. Não era nada disso, ele estava muito bem financeiramente, não era nada disso, pelo amor de deus, fora apenas distração.
Quanto mais ele explicava, mais o amigo se convencia do oposto. Chamou o garçom e pagou os chopes. Despediu-se com os olhos marejados de lágrimas. Caminhou alguns metros e se voltou para o desastrado explicante.
– Mas não vai gastar tudo em bebida!
x-x-x
Décadas mais tarde, no tempo presente, o executivo calhou de encontrar o amigo que há muito não via em uma cafeteria. Se abraçaram, se beijaram entre risadas, como você vai e coisa e tal. Quando o amigo perguntou se ele estava bem de vida, o executivo lembrou da história de Novo Hamburgo e a contou.
Terminado o relato, o olhou fixamente por algum tempo. Depois tirou duas notas de R$ 50,00 e as colocou discretamente embaixo da xícara de cafezinho do estupefato amigão. Antes de ir embora, deu o recado.
– Entendi. Mas não gasta tudo em bebida.
