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Meu pequeno paraíso

   O município de São Vendelino, que adotou o slogan oficial de “Pequeno Paraíso”, tem renda per capita de US$ 17 mil – US$ 20 mil é considerado índice de país desenvolvido. Para quem não sabe, foi lá que nasci. Saudades da minha infância e adolescência, do meu arroio Forromeco, dos primos, amigos, das paisagens que já se foram e não voltam mais, daquele dia em que, estava olhando para um dos morros, percebi, espantado, que o som de um homem rachando lenha só chegava aos meus ouvidos depois da machadada, meu batismo em Mach 1, a velocidade do som.

   Eu deveria ter seis anos, quando muito. A cena está tão nítida na minha cabeça que sinto até o cheiro do pão de milho que a empregada Rosa assava no forno a lenha naquele preciso momento. Engraçado, meu amigo Proust, ainda vejo a cena, a hora, meio da tarde, mas não lembro da cara da Rosa, só que ela era grande – e quem não era grande para nós pequenos? – e que era ruiva.

   Plantei uma pitangueira em um grande vaso em uma das sacadas do meu apartamento. Eu acaricio seu magro tronco quando saio de manhã cedo. Ela chegou a estar carregadinha de pitangas, mas sinto que falta-lhe espaço. Quando eu comia uma, imediatamente era transportado para minha ilha particular em São Vendelino.

   De uma represa artesanal, que não existe mais, saía um canal que alimentava o moinho colonial distante uns bons 600 metros – para mim eram 500 quilômetros de pura fantasia. Em um trecho, o curso da água criou uma pequena ilha, um pedaço cheio de pitangueiras, um frescor só no verão. Fiz uma ponte com tábuas e me refugiava na minha ilha do Tesouro, não sem antes tirar a tábua. Era meu reino, meu lebensraum, meu espaço vital.

   Hoje, não quero mais voltar para lá. Mudou tudo, vieram as indústrias e o progresso. Dos meus amigos de infância restam poucos, e meus primos moram em outras cidades. Se existir mesmo outra vida e a ela eu tiver acesso, é na minha pequena ilha que quero passar a eternidade, naqueles poucos metros cheios de pitangueiras e felicidade, que me alegram e me doem ao mesmo tempo quando deles me lembro.

Foto da internet, sem identificação do autor 

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Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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